É incontestável que a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) conseguiu inserir o Brasil no circuito dos festivais internacionais, em sua 14ª edição a Flip já é uma tradição. O festival faz sucesso com o público, as mesas mais concorridas têm seus ingressos esgotados em minutos, igual a grandes shows de rock, do mesmo modo consolidou-se como uma das maiores vitrines para o mercado editorial brasileiro. Em meio a tanto sucesso, há sem dúvida uma grande incorreção, a persistente ausência de compromisso com a diversidade de gênero e racial na programação do evento.

A saber nas últimas treze edições apenas uma escritora, Clarice Lispector, havia sido homenageada e até este ano, que prestará homenagem a poetisa Ana Cristina Cesar, a presença de homens na programação girava em torno de 85% a 75%. A edição de 2016 com 44% de mulheres na programação principal, ao todo 17, está sendo chamada da Flip das mulheres. A mudança explica-se por um esforço da organização do evento, como disse o curador Paulo Werneck “ao compromisso que a Flip assumiu de melhorar o índice de participação feminina”. Apesar do tom que predominou na grande mídia tenha sido o de euforia, inexistência de negros na “ Flip das mulheres” marcou as reflexões dos grupos comprometidos com a luta antirracista sobre o evento.

Em carta aberta a Flip, a historiadora e professora da UFRJ Giovana Xavier afirma que não é apenas uma questão de convidar ou não mulheres negras, “mas sim a falta de compromisso da organização do evento em pautar o debate sobre a questão racial”. Sem dúvidas, a luta por mais representatividade, maior participação e visibilidade de setores socialmente e historicamente relegados ao segundo plano, é um debate que vêm crescendo no Brasil, e em diversas partes do globo. Sobre esse tema, o de maior representatividade, o curador Paulo Werneck afirma que se esforçou para trazer autores negros para edição de 2016, como a Chimamanda Adchie, os americanos Neil DeGrasse Tyson e Ta-Nehisi Coates e o brasileiro Mano Brown. Paulo Werneck, garante que em termos de curadoria não seguiu a lógica de cotas“ seguimos esse nosso compromisso à nossa maneira, sem demagogias, pensando em qualidade e dependendo, inclusive, da agenda dos autores”.

O comentário de Paulo Werneck proporciona uma chave interessante para acessar um certo modo operandi das tentativas de representatividade que não se efetivam. Primeiramente, demonstra o verdadeiro constrangimento, de muitos setores, de assumir que talvez tenham sim que fazer escolhas a partir de recortes de gênero e raça. Esse constrangimento em muito se explica pela crença compartilhada que escolher uma autora também pelo fato de ela ser mulher e negra é “demagogia” e pode gerar perda de “qualidade” a programação do evento. Constroem-se assim um discurso pró-representatividade marcado pela inação. A organização da Flip reconhece que a literatura é um campo de pouca paridade de gênero e raça, uma realidade que vem desde o mercado editorial onde 93,9% dos autores publicados no Brasil são brancos, segundo a pesquisadora Regina Dalcastagnè da UNB. Mas ao entregar uma programação sem negros não se compromete com o combate dessa deformidade.

Agora cabe a pergunta de sempre, por que vale a pena se comprometer com uma maior representatividade racial nos espaços? Em específico, para o papel da Flip, a sistemática presença de negros no maior evento de literatura do Brasil sem dúvidas servirá para o mapeamento de tendências e consolidação de vozes no mercado editorial, marcadamente tão desigual. Assim como, ajudará o próprio fortalecimento da literatura brasileira, de sua linguagem e conjunto de temas, ao inserir as vozes, corpos e experiências que hoje participam de apenas 6% daquilo que é publicado. E em último nível, – o que serve para a necessidade de representatividade de gênero e raça em todos os espaços -, é que combater as diversas formas de racismo e sexismo é dever constitucional e exercício necessário para o aperfeiçoamento da democracia.

Logo, não há perda de qualidade e muito menos demagogia em priorizar o combate de deformidades no Brasil, Flip. Muito pelo contrário. Aumenta a qualidade da literatura e colabora com as trincheiras pela justiça social. Toni Morrison, a primeira mulher negra a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, é fruto, também, de políticas focadas nos EUA, que possibilitaram espaços de encontro para escritores negros e linhas editorais que priorizaram autores negros. Talvez, a inação poderia ter privado o mundo das potentes palavras sobre a escravidão, a pós-emancipação e a segregação de Toni Morrison. Sem dúvidas, vem silenciando palavras igualmente potentes no Brasil.

Apesar de tudo, estarei na Flip 2016, em especial, para ver Ana Maria Gonçalves e Cidinha Silva autoras negras que estarão em programações paralelas. Estarei lá, porque para nós a inação não é uma escolha. Porque mesmo não sendo priorizadas, nos últimos anos criamos e fortalecemos o debate sobre representatividade e autoria no Brasil e cada vez mais nos conhecemos e não conseguimos deixar passar as ausências. Porque como na campanha que já está nas redes queremos que vocês vistam nossas palavras (#vistamnossaspalavras)!

Imagem – reprodução web