A problemática a respeito da solidão da mulher negra e suas implicações é pauta recorrente dentro do feminismo negro sendo alvo de pesquisas e diversas produções  que perpassam o campo acadêmico.

Em seu texto intitulado “Vivendo de amor”¹ bell hooks inicia apontando que a pouca ou nenhuma afetividade na vida de mulheres negras é uma das verdades privadas menos discutidas em público, indicando o quão doloroso é tratar e debater esse assunto.

Em “Mulher negra: afetividade e solidão”² (2013), Ana Cláudia Lemos Pacheco aponta a necessidade de considerar a dicotomia raça e gênero nos estudos acerca da afetividade intra e interracial.

A autora menciona os estudos ministrados por Florestan Fernandes  apontando as consequências do período escravagista que influenciaram diretamente nas relações familiares e afetivas. Além de considerar as hierarquizações de poder estabelecidas por gênero e raça que configuram outras dinâmicas de abuso, preterimento e submissão.

hooks em sua própria pesquisa a respeito da experiência do amor na vida de pessoas negras, considera o impacto da escravidão no modo em que se sucederam as relações afetivas entre negros. Desde a supressão dos sentimentos adotada como estratégia de fortalecimento e sobrevivência às agruras do período escravagista, até o deslocamento do amor reduzido a condições de subsistência e à bens materiais.

Quando contextualizamos a dinâmica de relacionamentos e afetividade em que sobretudo mulheres negras estão submetidas, cabe acrescentar que no campo psicossocial³ a autoestima é uma construção social que cada sujeito constrói individualmente, na medida em que se relaciona com outros. Se torna nítida a percepção de que a construção dessa autoestima é intrinsecamente ligada a uma trajetória de relações interpessoais e de suas consequentes experiências que formam nosso repertório afetivo.

Posto que é reconhecido o preterimento e as inúmeras violações a que estamos sujeitas é possível traçar um paralelo em que a afetividade e a autoestima tornam-se interdependentes, uma vez que, minha autoestima é fruto de relações que me violentaram física e ou mentalmente terei por consequência uma construção de auto imagem flagelada e inferiorizada. Essa mesma autoestima que carregarei para tantas outras relações que repetindo ou não esse processo de violação me fará menos plena de confiança e valorização, noções que são necessárias à construção de relacionamentos saudáveis.

Através desse apontamento é possível atrelar as lesões causadas na autoestima a sensação de looping ou dejá vu afetivo em que vemos em  nossos relacionamentos? Estamos realmente nos edificando em relações sadias, ou reproduzindo com novos personagens as mesmas experiências de um passado doloroso e traumático?

É importante aferir que o papel da reconstrução de uma autoestima já fragilizada se faz necessário para que não nos enganemos com supostos relacionamentos  paliativos.

Ainda sob a perspectiva de bell hooks, ela ilustra em uma determinada cena a negligencia a que são lançados os sentimentos e a saúde emocional das mulheres negras, enfrentamos em nosso cotidiano uma série de adversidades motivados pelo racismo, pelo machismo e sistemas de opressões que nos obrigam a priorizar seus enfrentamentos ao mesmo tempo em que transforma nossas necessidades emocionais e afetivas em elementos subestimáveis.

Diante disso a autora propõe um exercício de autoconhecimento e transparecer “a mulher negra descolonizada precisa definir suas experiências de forma que outros entendam a importância de sua vida interior. Se passarmos a explorar nossa vida interior, encontraremos um mundo de emoções e sentimentos. E se nos permitirmos sentir, afirmaremos nosso direito de amar interiormente. A partir do momento em que conheço meus sentimentos, posso também conhecer e definir aquelas necessidades que só serão preenchidas em comunhão ou contato com outras pessoas.

Essas reflexões não têm como objetivo propor soluções referentes as batalhas emocionais a que estamos sujeitas, da mesma forma como cuidei para não atribuir a esse texto um tom semelhante ao dos discursos de autoajuda. As reconstruções são constantes e necessárias, como na maior parte das vezes não conseguimos enquanto mulheres negras apaziguar as dores uma das outras, mas no momento em que desafogamos nossas angustias e percepções, nos apoiamos na noção de que não estamos sós.

Imagem – Orange is the new black, reprodução web

Referências

  1. Vivendo de amor , bel hooks- disponível em : http://www.geledes.org.br/vivendo-de-amor/
  2. Mulher Negra: Afetividade e Solidão, Ana Claudia Lemos Pacheco – 2008.
  3. Por uma visão psicossocial da autoestima de negros e negras, Ana Luiza Julio- 2011
  4. Imagem Orange is the new Black, Netflix – 2015.