É difícil ser pessoa negra numa sociedade racista ,

É difícil ser mulher numa sociedade machista,

É quase impossível ser mulher negra num mundo do trabalho machista e racista.

Construir uma trajetória  profissional enquanto mulher negra é um exercício que exige de cada uma de nós,  porções gigantescas de resiliência, perseverança e resistência.

A sociedade racista requer de cada uma das mulheres negras constantemente a confirmação de sua capacidade e mais que isso: que prove sua capacidade para estar ali, que a cada minuto do seu dia convença que valeu a pena ter sido contratada , que valeu a pena não ter  uma pessoa branca ocupando aquele posto de trabalho.

Ter certeza da inferioridade da pessoa negra, faz com que se perceba com descrédito sua presença em qualquer posto de trabalho formal, exceto os caracterizados por serem expressão da subalternidade; nesses a capacidade de executar os serviços- capacidade profissional- não será questionada, serão outros os atributos profissionais questionados: honestidade, lealdade, serão postas a prova todo o tempo.

Uma sociedade racista demarcou desde o pós-abolição o  lugar da população negra no mercado de trabalho: será o lugar sempre a margem, à margem de todo o reconhecimento e dignidade, inclusive financeira.

O alijamento dos espaços de produção de conhecimento engessam a população negra em seu processo de desenvolvimento, a escolarização se dá historicamente de forma tardia e as sequelas são sentidas até os dias atuais. Mas, mesmo superando todo um percurso acidentado pelas estruturas escolares pautadas numa história racista que invisibiliza o protagonismo negro e reitera a ideia de subalternidade, não será o bastante para que mulheres negras construam uma carreira de maneira linear  e que seja alinhada a sua qualificação.

O modelo profissional que permeia o imaginário do mundo do trabalho é branco e homem. Não ser homem é uma barreira para todas as mulheres, não ser branca é um limite quase intransponível para todas as mulheres negras em sua trajetória profissional.

É preciso, por mais doloroso, ter coragem para lidar com esse fato.

Admitir que o masculino-branco é o modelo profissional que permeia o mercado de trabalho, ajudará a entender – e a enfrentar – as dinâmicas racistas que detém o progresso das profissionais negras, subalterniza o seu desempenho e adoece os seus corpos.

Uma mulher negra no mundo do trabalho precisa em todos os seus dias de trabalho ser excelente: precisa não errar, precisa não se confundir, precisa não se atrasar, precisa não adoecer, precisa não sucumbir. Não sentir o cansaço que sentem todas as demais pessoas com quem trabalha. Não sentir o desânimo das sextas a tarde, quando a capacidade produtiva de todas as pessoas do trabalho já começa a declinar. Precisa responder a e-mails que ninguém mais responderia. Preparar análises, pareceres, planos e projetos que ninguém mais faria… Elaborar relatórios que ninguém mais elaboraria – ou sequer leria – e precisa fazer isso tudo, não para ser considerada excelente profissional mas porque, independente de suas condições de trabalho, deve trabalhar mais e com mais afinco, porque é negra. Precisa demonstrar gratidão numa quase servidão voluntária peala oportunidade recebida, para que ao olhar para ela todas as pessoas que a contrataram possam dizer aliviadas: “apesar de ser negra, ela é muito esforçada”…

Esse é o ponto. Essa é a raiz. Pessoas brancas devem revisitar suas expectativas em relação ás pessoas negras e então ter a coragem de admitir que o nível de intolerância é maior com as faltas das mulheres negras, que o nível de reconhecimento é bem menor com as mulheres negras, porque no fundo, pessoas brancas esperam que as pessoas negras sempre trabalhem além dos seus limites. Esse é o tributo que devem pagar, diariamente, ao mercado de trabalho.

Nós, mulheres negras, precisamos ter esse cenário em mente, para que possamos encontrar uma relação com nosso de desenvolvimento profissional  que nos permita nos desenvolver no mundo do trabalho e não apenas sucumbir a ele.

Precisamos ter em mente, que esse compromisso com a exacerbação de nossa excelência a todos os minutos do dia, é uma construção da sociedade racista que nos exige um desempenho dobrado por sermos negras. E acreditem: um  mundo do trabalho racista jamais dirá que somos boas o bastante. Chega de mutilarmos nossos corpos com ritmos desenfreados e entregas desmedidas que jamais serão reconhecidas. Perceba: nunca fará o suficiente. Chega de adoecermos em nossa autoestima por não recebermos os cumprimentos, as respostas no mesmo ritmo que todas as demais pessoas. Esteja segura: quase nunca virão. Talvez receba em suas costas os tapinhas condescendentes de quem acredita que é apenas sua obrigação toda a excelência que produzes.

Precisamos re-significar a nossa relação com o mundo do trabalho. Estamos adoecendo, muitas de nós seguem, como nossas ancestrais, morrendo/sendo mortas- pelo trabalho. Entender que se trata de relações fundadas em  preconceitos e estereótipos racistas, nos ajuda a entender a natureza opressiva dessas relações, nomeá-las e então enfrentá-las.

Ter consciência de que essas relações existem. Separar o que é nosso, do que é da outra e do outro. Construir uma autoimagem profissional alinhada com quem somos e com nossa trajetória. E em seguida, nos instrumentalizarmos para questionar e talvez oferecer a cada pessoa em nossas relações de trabalho, uma oportunidade de confrontar com os princípios racistas que regem o mercado de trabalho, suas relações e suas vidas.

Afinal, como diria bell hooks, mulheres negras são poderosas… E eu ousaria afirmar, desconstruindo a lógica  do mercado de trabalho racista: “Apesar de trabalhadora”, sou mulher Negra.

Não nos esqueçamos disso. De onde vem nossa força.

Imagem – resprodução web