Se nos perguntarmos qual destaque é dado a mulher negra no âmbito da mobilidade urbana, a resposta é facilmente encontrada quando levamos em conta que vivemos em uma sociedade cruel, racista, sexista e elitista. Antes de começar essa proposta de comunicação, gostaria de salientar que este é o primeiro artigo que trata deste tema em pleno séc. XXI. Poucos textos e debates se aproximam do assunto e, esses poucos, fazem menção a mulher branca, empoderamento (branco), pela bike. São textos escritos e dialogados por/para mulheres brancas. Os demais (muitos) foram escritos por homens invisibilizando ao extremo a mulher negra. Isso significa que as mulheres negras precisam mais do que nunca serem representadas nesse espaço. Em 1951, Susan B. Anthony disse que: “Andar de bicicleta fez mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo” (Susan B. Anthony).  Quais mulheres estão incluídas dentro desta citação? As mulheres negras com certeza estão fora desse contexto. Existiram lutas e conquistas bem mais importantes para emancipação da mulher negra do que a bicicleta. Assim, já conseguimos identificar a exclusão da mulher negra somente nesta fala de Susan B. Anthony (feminista e defensora dos direitos das mulheres), o que não quer dizer que ela mesma tenha criado essa exclusão. O que estava acontecendo com as mulheres negras neste contexto? As mulheres negras estavam lutando para serem reconhecidas como pessoas, a mulher negra estava a mil anos luz atrás das mulheres brancas, pois, lutavam por questões básicas. A emancipação da mulher negra começou a ser construída a partir da sua condição de trabalho com relação ao salário (já que eram escravizadas). A partir desse ponto entramos no feminino negro, tendo outra narrativa nesse processo e discurso de empoderamento na mobilidade. Quando falamos sobre o feminismo negro dentro da mobilidade é porque faz parte da nossa identidade e construção diária. Estamos cientes de que devemos ocupar todos os espaços, considerando-os lugares nos quais são desenvolvidos os mecanismos de empoderamento, arma de luta, de libertação étnica e inclusão social.  E mais: a mulher negra deve não só ocupar todos os espaços, mas lutar para que seja vista, reconhecida e respeitada como sujeito de poder, sujeito político e autônomo.

“A mulher negra periférica hoje está preocupada com outras demandas e tem menos tempo para os deslocamentos.” Bem, a mulher negra tem mais demandas, sim. Pela construção social do seu papel de gênero e racial, essas são educadas para desempenharem o papel de cuidadoras de núcleo familiar, as vezes conotadas como “mulheres guerreiras” só que para essas guerreiras irem à luta elas precisam se locomover. Com isso, concluímos que sim, as mulheres negras periféricas também se preocupam com a mobilidade, que a maioria das vezes é suprida através do transporte público (pago), que no final, o dinheiro investido em passagens faz falta no orçamento mensal. Se houvesse uma estrutura  cicloviária, essa mulheres conseguiriam se locomover de forma bem mais ágil e com um custo praticamente zero e aquele dinheiro gasto em transporte poderia ser direcionado para outras demandas tão necessárias quanto a de locomoção. Enquanto as mulheres brancas na mobilidade estão preocupadas com a segurança, abusos (o que não deixa de ser uma preocupação das duas categorias) as negras são submetidas a diversos processos de subalternização; a de gênero, a de classe e a étnica. Isto é, está sujeita a vulnerabilidade social extrema. Se a mulher branca vem em um processo de luta por espaços na mobilidade, a mulher negra ainda está lutando por todos os espaços, inclusive pela luta existencial. São as demandas da invisibilidade e dos invisibilizados. O olhar da sociedade para/com a mulher branca e a negra são distintos, as pautas são diferentes. A mulher branca em cima de bike é vista como frágil (a bela revolucionária), a negra é vista como hipossuficiente e está sujeita a todo e qualquer tipo de preconceito e agressão no trânsito; o assédio é distinto e mais perverso devido  ao machismo e a hipersexualização do corpo da mulher negra. As negras das periferias estão sim preocupadas com outras demandas, só para reforçar, inclusive em ter uma mobilidade justa. Se houvesse uma boa estrutura de ciclovias que ligue a periferia a outros pontos da cidade, com certeza mais mulheres negras,  incluindo as da periferia, utilizariam a bike como principal meio de transporte. A questão é que, não existem espaços, acessos e alternativas para dialogar com a mobilidade (bike) urbana, além da distância casa/trabalho/faculdade. Faltam segurança, ciclovia, conscientização política, social e racial. Precisamos enegrecer a mobilidade, esse espaço também é nosso. Desse modo, o propósito desta comunicação é provocar a reflexão em torno dos aspectos problematizantes que definem a construção da mulher negra, sua resistência aos privilégios brancos na mobilidade e processos de subalternidade aos quais são submetidas.

Imagem – Arquivo pessoal