O feminismo negro surgiu no Brasil entre o fim da década de 70 e o início da década de 80, com o intuito de pautar as necessidades específicas da mulher negra, que não eram presentes no movimento feminista já existente. De uma forma geral, o movimento tinha uma identidade exclusivamente voltada ao gênero e não via como indispensável a prática de fazer recortes, como por exemplo etnia e classe social.   

Sojourner Truth, que fora escravizada e se tornou oradora, em seu discurso na Convenção de Direito das mulheres em Ohio, no ano de 1851, questionou se ela, enquanto negra, não era mulher, em um discurso que evidenciava o privilégio branco em detrimento ao negro, especificamente, mulheres.  

“Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregá-las quando atravessam um lamaçal e que devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? (…)” 

Partindo da premissa na qual no machismo a opressão se dá do homem estruturalmente opressor para a mulher estruturalmente oprimida, podemos aplicar esses mesmos preceitos dentro da questão de gênero, onde os privilégios das mulheres brancas são interpretados como ferramentas de opressão às mulheres negras. Mas quais privilégios são esses? O privilégio de estampar as capas das revistas, de interpretar majoritariamente os personagens das novelas, de estar nas passarelas ou de simplesmente ser preferida numa disputa por vaga de emprego. 

O papel da mulher branca é usar do seus privilégios para beneficiar as mulheres negras na sua luta antirracista, o que dificilmente acontece. Segundo Djamila Ribeiro, mulher negra, pesquisadora na área de filosofia e colunista do jornal Carta Capital, as feministas brancas tratam a questão racial como birra e disputa, impossibilitando o avanço e reproduzindo as velhas e conhecidas lógicas de opressão. A realidade é que pessoas brancas se sentem violentadas quando é evidenciado o sistema opressor que as beneficia. Afinal, ninguém quer ser tachado de opressor.  

 A dificuldade de reconhecer privilégio acarreta no silenciamento de mulheres negras. A descolonização do pensamento só se dá quando o negro tem o espaço para falar e, obviamente, quando ocupa esse espaço. Dentro do feminismo, mulheres negras acabam sendo deixadas às margens, pois o sistema opressor que nos cerceia garante a fala a pessoas brancas. E estas, auxiliariam na desconstrução, cedendo seu lugar privilegiado a mulher negra.  

O feminismo que não faz recortes, perece e falha. Se torna ineficaz e tão exclusivo quanto aquilo que combate. É alheio a realidades paralelas e segregacional. Como declarado por Grada Kilomba, artista interdisciplinar portuguesa, “O racismo é uma problemática branca”, e a cada um deve ser dada suas responsabilidades. O movimento não pode fugir delas.

Imagem – Natan Bruce.