Primeiramente: Luiza Bairros!

Hoje, dia 25 de julho, Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, completamos 13 dias do falecimento de Luiza Helena de Bairros – intelectual, militante, foi ministra, professora, combatente. E quem nos chama atenção para não deixarmos de relembrá-la é Vilma Reis. Ambas, Luiza e Vilma, são mulheres da intelectualidade negra.

Na pessoa de Luiza Bairros, quero saudar as centenas de intelectuais Afro-Latino-Americanas e Caribenhas que são herdeiras da forçada miscigenação desse imenso território, quero saudar as donas das letras escritas e não escritas, as mulheres que tem buscado vencer o epistemicídio sinalizado por Sueli Carneiro. Na pessoa de Maria Rita Casagrande – coordenadora deste projeto chamado Blogueiras Negras – também quero saudar todas as mulheres negras que se colocam pré candidatas aos pleitos municipais que acontecerão este ano nas várias cidades brasileiras, afinal a revolução será negra, lgbt e feminista <3, pois é por meio dessas mulheres que disputam os espaços de poder, que nossas vozes aumentam e ecoam cada vez mais, Maria e tantas outras buscarão o que é de todas e para todas e a política é o espaço onde temos condições de efetivar nossas lutas. Nas pessoas das mulheres do quilombo Guarajá Miri – localizado no município de Acará no estado do Pará – quero saudar todas as mulheres Afro-Latino-Americanas e Caribenhas que estão nos territórios marginalizados em combate pelo direito à terra. E nas pessoas de Beatriz Nascimento e Kayla Lucas França, saúdo todas as mulheres Afro-Latino-Americanas vítimas da violência contra as mulheres.

É uma honra compor este editorial em data tão importante para a nossa amefricanidade.

Retomar o dia 25 de julho é retomar as vozes dessas mulheres, as forasteiras de dentro¹, cujos corpos estão em combate diuturnamente em busca de liberdade, em busca de não ter medo. A frase aspeada no título desse texto é uma fala de Nina Simone que ilustra muito bem a energia de uma luta: não queremos mais ter medo. Não queremos mais ter medo de sair às ruas, não queremos mais ter medo de morrer sozinhas, não queremos mais ter medo de uma entrevista de emprego. Não queremos mais ter medo de lutar. Não queremos mais ter medo de tomar o que nos é garantido por humanas que somos.

 

 

 

 

 

Mesmo dentro do âmbito da militância negra, pouca gente sabe sobre as realidades das comunidades remanescentes de quilombos. No Brasil inteiro, são menos de 3 mil comunidades certificadas, segundo informações da Fundação Palmares, cuja última atualização foi feita em 20 de maio passado e que indicam o Pará como o terceiro estado brasileiro com o maior número de comunidades certificadas. Pouca gente sabe sobre como é o processo de titulação das terras quilombolas e o quanto isso impacta na vida dessas pessoas. São centenas, possivelmente milhares, de mulheres envolvidas diretamente nessas certificações, atuando como lideranças políticas, sociais, religiosas, são combatentes, se expõem contra os poderio branco latifundiário naquele estado e pela Amazônia toda. A Janete Tavares Galiza é uma das lideranças da comunidade Guarajá Miri e lembra que a certificação é apenas uma das buscas pela cidadania plena, pois acesso a escolas (e à merenda escolar), saúde pública, lazer, transporte e as constantes ameaças de construção e manutenção de barragens, são problemáticas que permanecem apesar da titulação. A juventude negra quilombola ainda precisa fazer o movimento da “expatriação” em busca de oportunidades em outros lugares, muitas mulheres das comunidades quilombolas são obrigadas a trabalhar como empregadas domésticas em casas de outras famílias, para complementar as rendas familiares. Essas lutas não são românticas e nunca acabam ao som de “we are the champions”. A todas as mulheres Afro-Latino-Americanas e Caribenhas: meu máximo respeito às suas territorialidades.

 

“A terra é o meu quilombo,

o meu espaço é o meu quilombo.

Onde eu estou,

eu estou,

quando estou eu sou”

(Beatriz Nascimento)

 

Beatriz Nascimento foi vítima da violência contra as mulheres. Não quero detalhar as condições de seu falecimento porque pode causar mal estar a muitas de nós. Mas em seu legado, Beatriz também escreve sobre um assunto muito caro às mulheres Afro-Latino-Americanas e Caribenhas, que é sobre sexualidade e poder. Beatriz contextualiza essa problemática no âmbito das relações entre mulheres e homens, “o status dominante do ele­mento masculino em detrimento do outro e­lemento, o feminino”, contudo as relações de poder não são necessariamente binárias, às mulheres negras trans* cabem outras relações de poder já que cada pessoa é cobrada a uma heterossexualidade e a uma cisgeneridade compulsórias, igualmente encaradas do ponto de vista político ou sociológico. As relações que envolvem pessoas trans* são quase sempre relações de poder e subjugação e violência.

 

 

Falar de violência é sempre perturbador, mas precisamos falar até que o mundo se convença sobre as várias faces da violência. Kayla Lucas França tinha 21 anos quando sucumbiu às altas doses de transfobia. Transfeminista, autodeclarada como pessoa trans não-binária, perdemos Kayla para o poder que a cisgeneridade exerce sobre a transgeneridade.

Todas essas mulheres, cada uma de seu lugar, constroem cotidianamente o sentido plural do dia 25 de julho. Buscar em Beatriz e Luiza a memória e a força de nossas histórias é também buscar construir um futuro melhor para as mulheres e meninas de quilombos ainda não titulados. Este editorial, hoje, é uma tentativa de reforçar a importância do Feminismo Negro, é por meio dele que contamos as histórias das “mulheres forasteiras” da normatividade estabelecida pelo processo colonizatório dos países europeus. Ele é nossa ferramenta de luta para que possamos um dia  viver a liberdade de não ter medo.

Gritem-nos NEGRAS
NEGRAS SIM!
Porque somos todas atlânticas
Porque lutamos pelo nosso bem viver
Porque seguimos longos passos
Porque por esses passos resistimos
Porque somos múltiplas
Porque somos quilombos
Porque somos combativas, agressivas, afetivas, conscientes, lúcidas
E NEGRAS
Adupé, mulheres negras!

(Thiane Neves Barros)

 

¹ Patricia Hill Collins apresenta o conceito de outsider within em seu trabalho “Learning from the outsider within: the sociological significance of black feminist thought” (leia sobre esse trabalho aqui nesse link) e ela conta que as mulheres negras afro-americanas passaram muitos anos vivendo a branquitude por dentro, como empregadas domésticas e babás das crianças brancas, eram conselheiras: “Essas mulheres viram as elites brancas, tanto as de fato como as aspirantes, a partir de perspectivas que não eram evidentes a seus esposos negros ou aos grupos dominantes”. Mas essas mulheres nunca de fato pertenceram a essas famílias, não eram suas famílias, não eram seus grupos sociais, “apesar de seu envolvimento, permaneciam como outsiders”, como forateiras, mesmo estando lá dentro.

Imagem – Beatriz Nascimento, Janete Tavares Galiza, Kayla Lucas França, Luiza Bairros, Maria Rita Casagrande, Nina Simone, Patricia Hill Collins, Preta Rara, Vilma Reis.