Rosana Paulino é uma artista de grande relevância na atualidade. Em sua obra, prioriza as narrativas de mulheres negras e sua trajetória em meio às barreiras socialmente impostas a essas mulheres como o silenciamento, a violência, a desvalorização, a negação de suas subjetividades, o apagamento de suas raízes ancestrais, o desprestígio atribuído a sua produção artística e literária. Rosana é uma mulher negra, pesquisadora, educadora, artista plástica premiada que possui uma rica trajetória artística, tendo estudado em outros países e participado de exposições Brasil afora. Tem um amplo repertório artístico e em sua obra dialoga com o presente e o passado de diversas gerações de famílias negras, dando destaque às mulheres, retratando opressões a que são submetidas e como seu corpo é tratado na sociedade, sempre ressaltando que são mulheres fortes, de raízes firmes, que sustentam gerações. Para compor sua obra, Rosana utiliza-se de diversas técnicas, desde esculturas a bordados, sempre enriquecendo e dando força a sua obra, que tem um alto potencial representativo e dialoga com o público fazendo com que ele também se sinta e se veja representado em sua obra. Rosana ocupa merecidamente um papel de destaque no cenário artístico por propor em suas obras a reflexão sobre as opressões e repressões impostas ao corpo negro, especialmente ao corpo da mulher negra, e um rompimento com a manutenção dessa situação nos convidando a olhar e a participar desse processo de libertação.

Além de ser uma artista com alto potencial criativo e representativo, Rosana é uma mulher negra como muitas de nós e nos dá voz e visibilidade por meio de sua obra. Muito solícita, ela aceitou responder a algumas perguntas, o que nos permite ter um diálogo com ela e sentir a sua força de artista e mulher negra.

Patricia Anunciada – Como você vê a situação da inserção e valorização da mulher negra no cenário artístico atualmente?

Rosana Paulino – Não só no cenário artístico, mas na sociedade em geral, há pouca valorização da mulher negra. O cenário artístico é apenas o reflexo de um local maior, que é a sociedade. Ainda estamos lutando para termos nossas demandas atendidas e, neste caso, vou além da questão de ser mulher. As demandas da população negra, no geral, não são vistas como justas e reais, e sim como “mimimi”, utilizando uma expressão bem popular. Isto mostra o quanto estamos atrasados no Brasil na discussão dos direitos individuais e coletivos.

Patricia Anunciada – Quais foram as suas principais referências na composição de obras pautadas na representação da mulher negra?

Rosana Paulino – Esta é uma pergunta difícil porque, tendo poucas artistas que trabalharam com a questão, as referências tendem a ser escassas. Posso dizer que quando passei a ter contato com poéticas desenvolvidas por artistas negras e/ou feministas minha produção já estava bem madura, então a arte das mulheres negras ou mesmo a arte feminista me influenciaram muito pouco porque não tinha contato com esta produção, isto não chegava ao Brasil. Lembre-se de que boa parte da minha formação foi feita na era pré-internet, o que dificultava o acesso a estas obras.  

Por outro lado olhei muitos artistas que admiro, brasileiros ou estrangeiros, e minhas influências são várias indo desde arte africana tradicional, arte dos aborígenes australianos passando pelo barroco brasileiro e desenhistas que gosto muito, como é o caso do Egon Schiele. Além disso, olhei muito as representações históricas do corpo humano, desde os árabes passando pela Europa medieval e renascentista. Sou uma apaixonada por anatomia e esta paixão me levou a perceber como as representações de grupos distintos podem trazer uma forte carga de preconceito.  

Patricia Anunciada – A sua obra em geral é de grande impacto e nos sentimos representadas nela. Qual é a importância dessa autorrepresentação proposta em sua obra?

Rosana Paulino – Fico extremamente feliz quando as mulheres dizem que se veem representadas na minha obra. Autorepresentação é importante, seja nas artes visuais, na literatura, no teatro… Empodera, é fundamental. Se perceber parte de um grupo, ver suas questões tratadas levanta dúvidas, faz brotar questionamentos mas vai além disso, dá subsídios para se discutir os locais sociais, quem os define, como e porque. Acredito que este incômodo gerado pela obra de arte é de grande importância e quanto mais cedo o contato com as obras melhor, mais fortalecidas ficamos porque não precisamos carregar o mundo sozinhas, outras/outros já trataram disso, não precisamos começar do zero. Isto permite que avancemos mais rápido.

Patricia Anunciada – Como você vê o potencial da arte para propor reflexões e lidar com opressões tão comuns no cotidiano da mulher negra como machismo e racismo?

Rosana Paulino – O potencial da arte é imenso para tratar das desigualdades, das opressões, e este é o motivo pelo qual ela incomoda tanto. No caso das mulheres negras, a arte mostra que somos mais que um corpo, mostra que temos potenciais, dignidade. Fortalece-nos para que possamos quebrar os estereótipos que nos foram impostos. E volto a dizer: não somente as artes visuais, a música, a literatura, o teatro… A arte tem uma qualidade que é extremamente importante: leva ao autoquestionamento, a partir da experiência de outras eu passo a perceber melhor meu mundo, quem eu sou. Autoconhecimento é fundamental para que possamos lutar contra o machismo e o racismo. Uma mulher que se conhece, que é segura de si sabe que pode dizer não, tem conciência de que não precisa ficar restrita aos papéis que a sociedade lhe impôs. A arte é tremendamente libertadora.

Imagem – Rosana Paulino por Celso Andrade.