Uma sexta feira qualquer no ano de 2016,  um dia que elegi para ser o primeiro dia de um novo tempo, de um novo tempo que começa com a reflexão, o pensar sobre a minha vida e a vida de muitas mulheres negras que conheci e conheço nessa caminhada debaixo do sol… penso como se estivesse diante de um diário e confidencio hoje na primeira de  umas cem folhas, com aquela energia de querer seguir pensando em cada uma outras folhas que virão pela frente.

Nessa conversa comigo e com o diário, o que surge como maior desejo e reflexão é a vontade que tenho de que  nós mulheres negras, nesse ano, façamos diferente, quero para cada um de nós aquilo que pessoas super otimistas chamam de  uma vida com propósito.

Acho que assumir o propósito, significa em última análise, assumir o controle das nossas vidas, reassumir esse lugar de se sentir  escrevendo e sendo também responsável pelo que virá. Significa pensar onde estaremos em 5, 10 ou 15 anos? Essa não é uma pergunta retórica. Com muita força esse ano, percebi que a maioria de nós mulheres  mulheres negras não consegue responder essa pergunta. Me responda sinceramente: Onde pensa que estará no ano que vem?

Percebo que em alguma medida estamos há muitos anos, muitas de nós temos vivido a partir do que vem chegando, uma espécie de carpe diem sem hedonismo, que nos acelera o coração mas atrasa os passos.

Penso que termos perdido tanto em nossas vidas de mulheres negras, tem-nos feito sentir medo, não o medo de tentar, mas mais do que isso: o medo de desejar, de querer. Não foi possível “querer”, e aceitamos o que chegou em nossos passos e vivemos como o único possível.

É chegada a hora de enfrentar esse medo, reassumir esse lugar em nossas vidas , e entender que precisamos decidir hoje, onde queremos chegar.

Talvez seja necessário olhar para nós mesmas e sentir aquela dor de  reconhecer que perdemos muito : perdemos nossas mães, nossas irmãs,  nossos meninos negros, perdemos os passos tranquilos nas ruas, perdemos o direito de sermos reconhecidas, sim… perdemos… e talvez talvez nós ainda venhamos a perder mais vezes, mais coisas; mais pessoas… mas apesar de todas essas perdas nós  sobrevivemos; e com certeza em outras vezes sobrevivereremos, então precisamos voltar a querer, precisamos levantar nossas cabeças, olhar o horizonte e nos imaginar chegando lá.

Precisamos sonhar. Precisamos querer. E penso que só então, voltaremos a agir. Sempre tem a chance de que amanhã nós pensemos diferente;  mas hoje faz muito sentido: Por que é que nos cobramos tanto estar em outro lugar, ter conquistado outros processos, acumulado mais saberes… se concretamente  nós não desejamos, sonhamos, planejamos nada disso? Como poderíamos  ter caminhado mais se a força do racismo tirou de nós a capacidade de  querermos nos mover?

Nós mulheres negras precisamos voltar a querer. Precisarmos querer o querer...

Sempre pensei que o nos diferencia de alguns seres, é que para alguns seres todo dia é hoje; eles não têm consciência do ontem nem do amanhã…mas nós temos, nós mulheres negras sabemos quem em cada uma de nós, cada vida de mulher negra; nossos corpos trazem em si a memória, a marcaa marca da resistência, do passado, do presente e do futuro que virá…por isso precisamos readquir a capacidade de projetar.

Já foi hoje por tempo demais em nossas vidas de mulheres negras. Chega de sonos sem sonho. Chega do vazio do não desejar. Acordemos! Vamos Sonhar!

Imagem – Hype Hair