Suely era uma mulher do tempo antigo, muito prendada ─ como se dizia por aí ─ lavar, passar, limpar, cozinhar era com ela mesmo. Era boa mãe e esposa exemplar. Amava os filhos e suportava o marido ─ este lhe era grosseiro e mal-humorado, às vezes beirava a violência, mas ficava no modo verbal ─ Suely não admitia o desquite ou o divórcio: “─ Casamento é para sempre”. Assim argumentava quando era questionada por algum parente assombrado com as atitudes machistas do marido e a total passividade dela. Embora soubesse dos vários casos extraconjugais do marido, Suely fora educada acreditando que era natural marido trair, e era também obrigação da mulher compreender as necessidades masculinas e daí perdoar e fazer de tudo para manter o casamento, principalmente se tivesse filhos na relação.

Com os filhos não agia diferente, os tratava como crianças, embora seu caçula já estivesse para completar quinze anos. Educava da mesma maneira que fora educada, ou seja, não deixava os dois meninos fazerem praticamente nada, já com a filha única, embora fosse a mais velha, a mãe era bem mais rigorosa: só podia sair de vez em quando e mesmo assim tinha hora para chegar, entre outras limitações. A moça ajudava nos afazeres domésticos, enquanto os irmãos desfrutavam da boa vida destinada aos homens.

Aquele dia não parecia ser diferente dos outros. Suely acordou no horário de sempre e cumpriu sua rotina de acordar as crianças e despachá-las para o colégio e os cursinhos; deixar a mesa do café pronta para quando o marido se levantasse e o jornal dobradinho ─ o marido gostava de fazer aquele barulhinho característico de desdobrar o jornal, era um dos pequenos mimos que ele nunca percebera ─ deixou a toalha de banho no banheiro, pois ele nunca se lembrava de levar e ficava irritado, caso ela se esquecesse também. Enquanto ia desenvolvendo tais tarefas mecanicamente, pensava no cardápio do almoço.

Assim que despachou o marido para o trabalho, foi para o supermercado providenciar os ingredientes para a lasanha que decidira preparar. Estava no setor das massas quando foi abordada por outra mulher que estava na dúvida sobre qual marca do produto levar. Pediu a opinião de Suely, que prontamente tentou ajudar, inclusive sugerindo uma receita. Conversaram sobre os preços altos dos alimentos e as substituições desses produtos por outros mais acessíveis. Gostaram uma da outra, trocaram telefones com promessas de manterem contato. Dois dias após esse encontro Suely recebeu um telefone, era Maria Divina ─ a conhecida do supermercado ─ estava ligando para lhe fazer um convite: haveria no próximo fim de semana um mutirão solidário, uma ação social na igreja do bairro e como Divina era voluntária, pensou em convidá-la. Cada um doava qualquer tipo de serviço e lembrou que Suely, de repente, poderia ajudar na cozinha no preparo do almoço que seria oferecido aos mais pobres. Suely ficou um pouco reticente, não estava acostumada a sair sem o marido, mas decidiu por aceitar. O marido não gostou muito da novidade, os filhos estranharam e Suely foi assim mesmo. Gostou do clima de festa, de poder ajudar os outros e de receber agradecimentos. A partir dessa data a amizade entre Maria Divina e Suely se estreitou mais. Conversavam todos os dias e sempre tinham algo para fazerem juntas. O comportamento de Suely foi mudando a olhos vistos, fazia tudo muito rápido de manhã para sobrar tempo à tarde e se encontrar com Divina. Esta por sua vez, se preocupava em surpreender a amiga com presentinhos e mimos, a elogiava e falava-lhe coisas doces. Suely, esposa e mãe zelosa, certo dia acordou cedo, preparou o café, deixou o jornal dobradinho, despachou as crianças para o colégio, depois fez as malas e foi – se embora, Maria Divina, seu novo e grande amor a aguardava com um lindo vaso de violetas.

Imagem – Malabares, por Vanessa Zanini