Falar sobre maternidade não é algo fácil, muitos são os condicionantes e formas de olhar para essa questão, mas quero refletir sobre ser mãe solo, ou “mãe solteira”. Nas dores e escolhas que fazemos na vida pautando nossas filhas e filhos como mais importantes e nas muitas vezes que nos anulamos sem ter o reconhecimento que deveria ser natural, tanto por parte da sociedade quanto da família e também por parte delas, nossas crias. Não me refiro às chamadas produções independentes e sim as mulheres que, por motivos variados, ficaram sozinhas com um filho no braço e a um fato que atinge um grande número de negras e nossa solidão sistêmica.

Ser mãe não é uma escolha para todas as mulheres. Aquela mãe romantizada, dedicada, com tempo para leituras e atividades de todo tipo, que brinca e põe pra dormir então, considero um privilégio para poucas. Privilégio esse que para mulheres que criam seus filhos sozinhas é quase impossível. Afinal, criar uma criança e conseguir conciliar trabalho, casa, educação e algum tipo de entretenimento, é de um malabarismo infinito, mas muitas estão ou já vivenciaram essa batalha.

Na maioria das vezes vencemos, mas a que preço? Eu digo que carregando o peso do mundo nas costas, pois mulher que cria filho sozinha, dando murro em ponta de faca, enfrentando batalhas judiciais por pensão alimentícia, ou mesmo abrindo mão dessas discussões porque sabe que será algo interminável e, no final, o “pai” da criança só vai lhe causar mais chateação do que colaboração é algo visto de forma naturalizada em nossa sociedade.

 Segundo dados do IBGE em 2010, 38,7% dos 57,3 milhões de domicílios registrados eram comandados por mulheres. Em mais de 42% destes lares, a mulher vive com os filhos, sem marido ou companheiro, de acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). Ou seja, boa parte desses números são de mulheres que lutam contra uma estrutura precarizada, sem políticas públicas que contemplem de forma satisfatória a realidade de criar filho sozinha.

Vários são os relatos de mães que recorrem às vizinhas para cuidar da criança naquele dia que teve que fazer hora extra, ou porque a creche/escolinha está em férias, o pai não pode ficar porque “ele” trabalha né? Levar ao médico é um sacrifício, filho doente é alerta de risco de ficarem desempregadas, poucas são as empresas que relevam faltas por acompanhamento médico, filhos de mães que trabalham em casa de família só podem ficar doentes em dia de folga delas.

Mães solo passam noites em claro medindo febre, de olho na hora de dar o remédio. Choram por não poder participar de alguma apresentação na escola porque não podem faltar no emprego. A avó vira mãe, acode na hora do sufoco, mas nem todas querem essa nova obrigação. Afinal muitas já passaram por isso e precisam ser poupadas, sim essas coisas também são pontuais nessa vida de solidão materna.

Quem é mãe solo por imposição social lida com a discriminação por não ter um “homem do lado”, mas a falta de companhia também reflete a condição em que nos encontramos, poucas são as vezes que alguém não torce o nariz quando descobre que temos filhos, a frase que mais se houve é “mulher com bagagem, ninguém quer” ou “não sou obrigado a criar filho de outro”. Então estar sozinha, na maioria das vezes, não é uma escolha.

Abrimos mão de possíveis amores, de carreiras, de escolarização e formação acadêmica, de viagens, de vida social em nome do melhor para nossas crianças, mas e nós como ficamos no final de tudo isso? Suspiramos acreditando que foi a melhor escolha ou a única possível, por isso somos chamadas de guerreiras, batalhadoras e grandes exemplos, mas poucas vezes esse reconhecimento acontece de fato.

Quantas críticas sofremos por qualquer problema que venha acontecer, quanta culpa nos é colocada se a criança adoece, não corresponde na escola, é arredia com estranhos, faz birra, não se dá bem com a nova companheira do pai, ou com um novo irmão? Se reclamamos de falta de tempo para nós somos egoístas, não temos direito de adquirir algo particular sem sofrer, tomar um simples sorvete sozinha rua se torna uma tortura. Acabamos levando algo para casa, nem que seja um bombom. Sim, somos culpabilizadas o tempo todo por escolhas que não fizemos e responsabilidades que fomos obrigadas, socialmente, a assumir.

Há muitos momentos de lágrimas escondidas, quando precisamos de colo, um abraço de alguém que entenda nossa dor. Também esperamos que a família nos cobre menos, esperamos compreensão e certa cumplicidade, mas raras vezes isso acontece. Quantas vezes aqueles que ajudam nos fazem críticas por acreditar que seu apoio em determinado momento lhe dá permissão para opinar em nossas vidas mesmo sem ser consultado?! Sim, somos vítimas potencias de estresse e depressão.

Em casa ainda corremos o risco de sermos chamadas de implicantes se reclamamos de uma louça na pia, de um quarto desarrumado, de uma roupa que não foi para o varal. E para não termos que ficar “pedindo ajuda”, no final de semana (aquele que deveria ser de descanso e uma possibilidade de vida social), nos dedicamos à faxina, organização da casa e fazer uma comidinha gostosa, muitas vezes para receber as amigas e amigos dos filhos. E ficamos felizes por vê-los bem, mesmo que nossa realização pessoal seja praticamente nula. Mas se fizermos uma escolha que seja diferente dessa imposta a fogueira está pronta e ardente, pois uma mãe tem que entregar a alma pelo bem de seus filhos, não é mesmo?

As histórias são todas muito próximas, de fato não temos pra onde correr, pois a estrutura social nos impõe esse papel social, mas o que fazer para preservar nossa individualidade? Eu aprendi, a duras penas, a não me culpar por tudo. Não podemos desistir de planos e sonhos, não podemos nos esquecer de nós mesmas. Precisamos urgentemente parar de colocar o peso de todos os problemas do mundo sobre nossos ombros e sim fazer algumas escolhas. Mesmo chorando com os sacrifícios que nos colocam entre filho versus qualquer outra coisa de suma importância é preciso considerar as propostas, afinal algumas oportunidades nunca mais se repetirão em nossas vidas. Se o pai da criança é de mínima confiança, ele que aprenda a lidar e descobrir as particularidades de criar um filho sem a nossa presença para coordenar ou mediar situações.

O foco é em não se anular, não desistir de si mesma. Afinal não precisamos ser supermães ou supertudo. Não precisamos nem podemos ser fortes o tempo inteiro, esse rótulo de guerreira e batalhadora não deve ficar impregnado em nós como uma segunda pele. Até porque isso legitima a falsa ideia da nossa capacidade de suportar vários tipos de dor sem reclamar. Precisamos ampliar nossas redes de apoio e confiar nelas.

Somos mães, somos mulheres em luta constante numa sociedade machista e misógina, queremos educar filhos melhores para esse mundo, mas não podemos vestir a capa de heroína e achar que somos imortais. Nosso corpo e nossa alma sangram, precisamos manter nossa sanidade e emoções por que quando a pancada vem nada do que vivenciamos é colocado na balança e precisamos nos manter em pé, sempre. Mas o peso pode ser aliviado desde que todos assumam sua parcela de responsabilidade e a gente entenda que não podemos encarar tudo sozinha. Não é simples nem fácil, mas é preciso.