Sempre que é pronunciada a palavra “Funk”, uma série de estereótipos recai na conversa. Esse estilo musical que não ocupa o mesmo posto de admiração e respeito que outros estilos, de musica, como o rock, musica clássica e tantos outros estilos, leva consigo, um espaço e um público determinante, sendo esses respectivamente a periferia e o povo preto.

Falar de machismo; de apologia ao crime, às drogas; de cultura do estupro e de outros males sociais, sempre os associando ao Funk. Mas o que  realmente no Funk é a deslegitimação de uma cultura, de um espaço e de um povo, pois se é essa língua que é falada na periferia, é a ela que devemos respeito, não é apenas à música erudita, que deve ser considerada como legítima, que deve ser respeitada, mas sim toda forma de música e todo forma de linguagem.

Quando o funk é deslegitimado, todo um espaço e um povo são descaracterizados e marginalizados. Creio que não seja apenas uma experiência minha, mas de tantas outras mulheres pretas e periféricas que chegaram à universidade, ou há algum outro lugar branco e elitizado, que se inseriu nos debates feministas, ou considerado de uma alguma forma, movimentos progressistas, não se chocaram com há forma com que alguns desses discursos caracterizavam o funk, considerando-o como uma barbárie, no entanto, o que esses locutores não percebem é que não estão referindo-se a apenas um gosto, ou expressando sua opinião, mas sim, estão falando de exclusão, de invisibilidade, e da manutenção de determinada ordem social, que incluí e legítima poucos, enquanto, excluí e silencia muitos.  

Há realidades diferentes, falares diferentes, experiências diferentes e, grande parte delas, não estará inscritas nos textos acadêmicos que lemos. Ser empoderada está além de saber quem é Simone de Beauvoir, ou o que é Teoria Queer, talvez esse empoderamento de que muito falamos está em uma das letras da Carol de Niterói, ou quando um Funkeiro canta, que “Malandramente a menina fez cara de carente, só para poder curtir”.

Essa marginalização da cultura da periferia é sintomática, pois discursos fracos, que não veem que se não começarmos a ver a mulher da periferia e a própria cultura, a linguagem, os gestos que são próprios da periferia, as mudanças continuaram no papel e não extrapolaram os muros da universidade.

Enquanto os movimentos pela emancipação social das mulheres não perceberem, que as mulheres pretas, periféricas partilham de outra dinâmica social, que gostam de funk, vivem e discutem a sua sexualidade, as suas experiências de outras formas, que talvez para elas discutir sobre tamanho da vestimenta, seja menos importante, do que discutir sobre mobilidade urbana, que defender que dançar funk é compactuar com uma forma de misoginia e com o patriarcado relegar ao funk, somente esses aspectos, que convenhamos permeiam a toda a sociedade, até os lugares considerados como “livres de opressão”. É importante perceber que dançar, cantar funk é uma escolha.

A mulher que dança e canta funk compartilha de outro espaço social, de outra forma de comunicação. Não respeitar essa forma é um preconceito linguístico. O ato de termos Funkeiros, principalmente mulheres MCs é um processo de empoderamento, em que essas pessoas não deixam silenciar se e se impõem como donas de seus próprios corpos, legitimam o que é marginalizado, e nesse ato passam a ser sujeitos de seu corpo, espaço e identidade.

Falar de funk é muito mais do que falar em dança, em cultura do estupro, em machismo, ou propagar “sobre o fim da cultura”, é falar sobre manutenção de relações de poder em que uma língua e tudo que é atribuída a ela, como os seus locutores e o lugar de onde ela é falada, é relegada ao reconhecimento, enquanto, outra língua é desvalorizada, ou em que uma é tida como erudita e legítima e outra é marginalizada. Estão inscritas nessas lutas por reconhecimento, pois considerar o funk, ou qualquer outro aspecto, que seja próprio das periferias do país é relegar a tudo que está inscrito dentro desse espaço, com conotação positiva, é dar o verdadeiro reconhecimento e legitimidade que foi negado historicamente a esse espaço e a população que ali habita.  

Buscar ultrapassar as barreiras do que se pode considerar como uma “verdadeira revolução”, passa muito mais por deixarmos nossos privilégios, nosso espaço, campo de poder, para olhar ao nosso redor e perceber, que às vezes, esse tão almejado sonho, de empoderamento e de mudança social, está inscrita com linguagem e gestos diferentes dos descritos nos nossos manuais revolucionários.