Sempre digo que o que não nos mata, nos fortalece. Na minha visão, a luta da mulher negra, na qual me incluo, tem início no momento em que vimos ao mundo, pois, mesmo antes de sabermos dar nome a um sentimento que machuca e inferioriza (oprime), lutamos para permanecermos nos lugares, continuarmos nossa caminhada e não nos deixarmos abater. Então seguimos, mesmo machucadas, e nos tornamos fortes a cada episódio diário de opressão – ou é isso ou então cedemos e nos tornamos obedientes cumpridoras de um papel historicamente imposto a nós, mulheres negras. Sobrevivemos a cada dia, ou melhor, morremos e renascemos todos os dias. Antes de sermos mulheres negras somos meninas negras.

Eu estudei a vida toda em escola pública, no interior do Piauí, na cidade de Barras, há duas horas de Teresina. Lá aprendi que ou você bate ou apanha e eu escolhi bater; tive uma infância e adolescência bem “rebelde”, agressiva e solitária, fui antagonista, assim como muitas crianças negras, de muitos casos de racismo e do “escuro” machismo também. Recordo-me de que certa vez um livro sumiu da biblioteca e a professora, juntamente com a diretora, me culparam, pois tinham certeza que eu havia furtado o livro.  Foram até minha casa,  procuraram e nada encontraram, e minha mãe só ouviu um pedido seco de desculpas. Desde muito cedo tive um sentimento que não sabia dar nome. Sempre fui a criança mais “danada” e tantas vezes falaram que até hoje reproduzo o discurso: sim, eu era.  Mas hoje sei muito bem que apenas tentei me defender de algo que não via. Com isso quero dizer que nascemos lutando, sim – a luta pela igualdade e aceitação, ouvindo que não importa o que falemos ou quantos 10 tiremos na prova, nunca será suficiente para sermos boas crianças, ainda mais quando viemos de família humilde.

É como se nascêssemos em um mar e temos que ali nos obrigar a sozinhxs aprendermos a nadar. É assim o nascer pretx: a vida nos impõe a nascer lutando, ou somos fortes ou somos atropeladas pelas ondas. São muitos os atropelos. Eles vão desde as piadinhas da vizinha; da mãe de amiga branca rica que xinga e diz: “Para de brincar com essa neguinha, ela não vai ser ninguém”; até o episódio da criminalização da criança negra. Já nascemos com a luta na pele.

Agora é certo que não nascemos, mas nos identificamos como negra. Porque a opressão em cima da preta, como a imposição da beleza padrão, do cabelo padrão e ou futuro padrão “globo” de futuro dx pretx, não dá espaço para gostarmos de sermos quem somos. Mas sabemos desde sempre que somos pretas, pois xs opressorxs se encarregam de sempre nos lembrar. E então tem o início da “negação” e embranquecimento para fugir da opressão. Até o dia em que nos libertamos ou batemos de volta, pois descobrimos nossos passos/história.

A universidade foi um meio no meu empoderamento enquanto preta, e a luta foi sem sombra de dúvida o fim/recomeço dessa libertação; desde que entrei na UESPI me joguei de cabeça nos vários espaços de militância (Centro Acadêmico, Assessoria Jurídica Popular – CORAJE, DCE, Mov. Estudantil, Coletivo De Juventude, etc.), sendo eles também meios, pois foi nas vivências/práxis que encontrei as ferramentas necessárias para quebrar as correntes que nos amarram. Tive momentos no Memorial Zumbi dos Palmares, na periferia da Zona Norte (Santa Maria da Codipi) com os movimentos hip-hop e etc. A atuação no movimento estudantil faz-nos crescer como militantes, ao mesmo tempo que nos afasta de um elo muito importante que deve ser o mais importante para nós mulheres negras: militar por vida, a nossa inclusive e isso não é ensinado nesses espaços vários de análise de conjuntura. Isso porque nesses espaços, infelizmente, somos vistas como trabalho braçal e descartável, enquanto o intelectual e a liderança sempre é o lugar de homens brancos.

A amplitude da luta enquanto mulher negra na sociedade se deu graças às vivências: ao passar pela transição, o pertencimento e reconhecimento enquanto povo preto, a identificação das mazelas pela vivência… Tudo isso empodera. Me libertou da militância embranquecida, do feminismo embranquecido.

A identidade negra, esse momento de se reconhecer é importante, mas não pode ser o fim em si mesmo, uma vez que deve haver continuidade, deve se alinhar com a prática. Toda favela é quilombo e todo quilombo tem nossa história. Como diz uma frase: “Nossos passos vêm de longe”. Nós, mulheres negras, somos fortes, sempre fomos e sempre nos dizem para permanecermos fortes. Porém, não podemos esquecer que toda fortaleza tem suas fraquezas e como negras temos também o direito de tê-las e precisamos, sim, de ajuda.  No fundo não queremos sempre e sempre, a todo momento, ter de sermos fortaleza, pois somos também humanas, nosso povo é humano. E quando nossxs opressores vão de fato aceitar isso?

Somos as que carregam a história do sofrimento, as clandestinas abortivas, as mães solteiras, as detentas, as diaristas, as adolescentes rebeldes…São tantos os estereótipos. Mas por que não aceitam que trazemos também a nossa história, a história do nosso povo, que sempre fomos as guerreiras de nossas tribos, independentes, sangue no olho, fortes por natureza, rainhas com grandes reinados, poetizas da oralidade e etc.? Deve ser porque a caneta que nos descreve não tem tinta preta e apenas a terá quando descolonizar a mente e a história de verdade, pois existe mais de uma versão. E se até hoje a história do povo preto não morreu/sumiu foi devido as mulheres negras e sua oralidade.

Fiz direito porque sei da importância de ocupar esses e outros espaços. Fiz minha monografia em forma de pesquisa de campo na Penitenciária Feminina de Teresina com o tema: “Mulheres apenadas pelo tráfico de drogas”, foco nas condições das mulheres negras. E a importância de fazer a pesquisa nesse espaço veio do acúmulo da militância preta e da necessidade de contar a história. Afinal é um perigo uma única versão da história, principalmente quando a cor da tinta não é preta.