Caras irmãs sou uma mulher negra, estudante e jovem.

 

Nunca me explicaram o que era ser negra e o que ser negra acarreta em uma sociedade racista como a nossa.

 

Ainda mais quando se é mulher!

 

Fui, desde pequena, muito livre em termos estéticos. Meus pais, por mais que não me explicassem os percalços que os meus lábios grossos, meu nariz largo, meus olhos grandes, minha pele preta e meu cabelo crespo imporiam, sempre me disseram que eu era linda.  E eu cresci acreditando. Portanto, tenho um percurso um tanto diferente da maioria das meninas negras que, desde cedo, são obrigadas a alisar seus cabelos, não passar batom para não aumentar os lábios, ou regular a cor da roupa que vestem para não saírem como “loucas”.

 

A primeira vez que senti minha liberdade estética ser vilipendiada foi com a visita da minha vó paterna à casa dos meus pais. Ela me obrigou a trançar os cabelos. De forma muito dolorida e demorada, vi meu cabelo cheio se tornar vazio. Minha cabeça doeu por dias. Mas, no fim, muito para me alegrar, minha mãe encheu-me de tererês (queridos anos 90…), e as tranças deixaram de me incomodar tanto.

 

Mas o episódio das tranças sempre se repetia quando essa minha avó ia me visitar e, quando cresci, decidi que nunca mais iria usá-las.

 

Fui adaptando o meu cabelo ao meu gosto momentâneo. Muito cumprido e cheio na minha época meio hippie. Muito curto quase raspado, quando queria que todo o colégio soubesse que ninguém iria me doutrinar e que me chamar de sapatão não me incomodava nenhum pouco. Curto, cacheado, alisado. Sim, resolvi aderir à chapinha e pintar de ruivo. Um grande choque para o movimento negro da minha universidade!

 

De forma muito rápida, eu deixei de ser chamada para as mesas das quais sempre fui figura ilustre. Deixei também de fazer parte daquele seleto grupo dos que “sabem das coisas” e que diz que quem alisa é colonizada, fútil e quer negar as suas raízes e coisas afins. Esse mesmo grupo, principalmente as mulheres, reconhecem Beyoncé, Rihanna, Ludmilla como as divas empoderadas que são.

 

Não conseguia, portanto, compreender, quais os critérios estabelecidos para que elas estivessem dentro e eu fora. Por que elas são negras empoderadas e eu não?

 

E até hoje não sei responder.

 

Esse relato mulheres não procura deslegitimar o importantíssimo processo de empoderamento estético que, também através da valorização do nosso crespo, mostram como somos belas e capazes! Essa minha história só propõem uma reflexão. Propõem também que, ao invés de negligenciarem a vida das suas irmãs negras alisadas, tragam-na para o movimento, reflitam com elas, e percebam o que envolve o alisamento de seus fios. Não neguem a liberdade estética que não anda, acreditem em mim, na contracorrente do nosso empoderamento. Não silenciem a voz dessas mulheres tratando-as como inconscientes do seu “eu negra”!

  • Nubia de Oliveira

    Quando eu era criança sofri muito com meu cabelo crespo. Nem por ser exatamente crespo, mas por ser muito na época, tinha volume demais, minha mãe não sabia o que fazer… vivia super preso, eu vivia com dor de cabeça. Depois que surgiram os cremes pra pentear e os relaxamentos, eu passei a soltar meu cabelo todo lambuzado de creme pra segurar o volume e fiquei assim até aparecer a chapinha. E nunca mais usei cabelo natural. Pintei de várias cores, inclusive descolori bem claro. Por ter a pele mais clara e olhos claros, nunca fui recriminada diretamente por fazer essas mudanças (sempre tenho que provar que não uso lentes pq nega de olhos verdes é um abuso né) acho que por ter feito isso antes das pessoas começarem a ficar incomodadas com isso. Agora uso cabelo escuro. Mas acho que estética deveria ser livre, afinal, gente branca também mexe muito na aparência e não perde sua identidade, assim como outras etnias. Percebo que quando eu era mais “natural” sofria mais preconceito que depois que mudei a aparência. Talvez seja isso que precisa ser discutido, porque a estética afro sofre mais racismo sim. Uma negra com cabelo crespo vai ser mais rejeitada que uma negra de cabelo alisado. Mas não acho que isso deva tirar o direito ou desqualificar a vaidade da mulher negra e limita-la a só mudar o visual dentro de um padrão estético étnico. Mas eu não sou qualificada pra discutir sobre isso, é só uma opinião pessoal!

  • Gabriela

    Essa discussão é muito pertinente. A questão não é só usar o nosso cabelo crespo, a questão é usar o cabelo que nós quisermos. No momento meu cabelo está crespo e eu me sinto bonita assim. Eu me acho linda com qualquer cabelo, ou até sem cabelo, isso é poder! Nós adoramos usar turbante e o nosso cabelo crespo, mas detestamos nos encaixar em “padrões de beleza”.