Síndrome de Cirilo e Palmitagem são diferentes nomenclaturas para uma problemática antiga. A afetividade negra está em questão, o “amor” do homem negro tem estatisticamente se direcionado à mulher branca, o título da tese de doutorado da Profa. Dra. Ana Cláudia Lemos compreende e transmite perfeitamente a ideia do homem negro e seu olhar à sua “amada”: “BRANCA PARA CASAR, MULATA PARA F…., NEGRA PARA TRABALHAR”.

É dolorosa a afirmação do título, no entanto é real. É real e está presente nas percepções dos indivíduos, em seus discursos e ações. Para compreender essa afirmação, basta pensar tais ações como o reflexo de processos históricos e sociais que envolveram e resultaram na construção desse pensamento. Processos esses que envolvem diversos campos da interatividade social.

É notável ainda na infância a ausência de representatividade, uma vez em que todas as princesas, heroínas e personagens são majoritariamente brancas, contribuindo desde cedo para a valorização de um único grupo étnico, essa valorização limita a visão sobre o que é belo e aceitável. Há, portanto uma supervalorização da brancura, já que mulheres brancas foram sempre caracterizadas pela literatura como serenas, suaves, belas, recatadas e do lar, no cinema seus rostos e corpos são o padrão e é aquilo que se considera “belo”, são sempre por mulheres brancas que os protagonistas se apaixonam, são sempre as mulheres brancas as protagonistas. Desse modo, o amor do século XXI é branco demais, branco demais pra mim mulher negra e é sobre a minha particularidade que esse texto quer gritar.

Agora eu venho falar de mim, de mim mulher negra e da hiperssexualização que meu corpo passa rotineiramente e de como isso afeta ou afetou as minhas relações e a de outras mulheres negras. Exemplo disso está no “fiu-fiu” e o “ei, princesa” que tanto incomoda às mulheres de modo geral. Eu mulher negra convivo com um passo além do machismo, se o “fiu-fiu” é doloroso, imagine o “eu, vou comer teu c*” – pois é o que eu ouço quando saio às ruas.

É a ideia dos senhores de engenho que ainda se faz presente, é a compreensão da “mulata pra f****”. Abdias do Nascimento nos conta em o Genocídio do Negro Brasileiro, que no período colonial os homens brancos iniciavam as atividades sexuais com as mulheres negras escravizadas, em outras palavras eles as estupravam e em uma categoria animalesca definiam o que fariam com os seus corpos.

Tempos depois, o mesmo Brasil em tons de república comemorava o carnaval e tinha como musa a mulher negra em plena nudez. E como em uma tradição a presença da mulher negra no país passou à ser realizada uma vez ao ano, em fevereiro, seminua.

Sendo assim, eu sou a “gostosa” que os homens negros vão “comer”, eu sou a “gostosa” que ouve “eu vou comer teu c*” sair da boca de 4 homens dentro de um carro em uma rua movimentada. Eu sou a “gostosa” que não conhece o amor, eu convivo com a hiperssexualização do meu corpo e com a total ausência de afetividade sobre esse mesmo corpo. Essa construção de homem negro, não sabe ainda amar a mulher negra.

E a “negra para trabalhar”…

A força de trabalho das mulheres negras esteve presente desde o período colonial, quando às mulheres brancas estavam ainda sobre à condição de “recatada e do lar”. Ou seja, a inserção da presença negra no país já ergue à imagem da mulher negra trabalhadora, que tem a sexualidade e afetividade negada, e assim nascem as “tias Anastácias”.

Essas três representações, trazem à tona percepções concretas e já apuradas em pesquisas sociais. Falam de mim e da minha vivência enquanto mulher negra e explicitam as possibilidades para a afetividade da mulher negra, são os argumentos concretos das ações dos homens negros, tornam óbvios os privilégios que as mulheres brancas têm, que se estabelecem desde o simples fato de não se preocupar em ser amada.

Sim, pois o amor não é uma problemática na vida da mulher branca. Ela vai ser amada, ela será a Summer de alguém, será a mocinha à ser resgatada, será à princesa à ser coroada. Mas antes de falar dela, eu preciso falar sobre ele e sobre todos eles.

Frantz Fanon, em Peles Negras e Mascaras Brancas, afirma:

Da parte mais negra de minha alma, através da zona de meias-tintas,

me vem este desejo repentino de ser branco.

Não quero ser reconhecido como negro, e sim como branco.

Ora — e nisto há um reconhecimento que Hegel não descreveu —

quem pode proporcioná-lo, senão a branca? Amando-me ela me prova

que sou digno de um amor branco. Sou amado como um branco.

Sou um branco.

Seu amor abre-me o ilustre corredor que conduz à plenitude…

Esposo a cultura branca, a beleza branca, a brancura branca.

Nestes seios brancos que minhas mãos onipresentes acariciam, é da

civilização branca, da dignidade branca que me aproprio.

Fanon encara o comportamento do homem negro diante de uma relação inter-racial, como uma maneira de ascensão social e uma estratégia de embranquecimento, uma fórmula perfeita para ser inserido no mundo dos brancos, para ser um branco. Avaliando o psiquismo do negro, o autor realiza grandes contribuições para a compreensão do que chamamos de palmitagem ou síndrome de Cirilo.

Sendo assim, tornam-se notáveis os porquês da preferência dos homens negros heterossexuais, pelas mulheres brancas. A representação do belo e digno de amor foi construída histórica e socialmente sobre a imagem da mulher branca, e ainda contamos com a cereja do bolo que trata-se de uma subjetividade que tenta forjar-se de branca, no âmbito do inconsciente do homem negro ele quer a qualquer custo tornar-se branco e externaliza as ações por meio da relação com a mulher branca. Apropria-se da branquitude, é um quase branco, estabelece uma relação afetiva e sexual com a mulher branca e assim aproxima-se do seu objeto de desejo – a brancura da civilização.

O desejo do homem negro é justificável, sua intelectualidade vem sido anulada há anos, o conhecimento é branco, a cultura produzida e enaltecida é a branca, dessa maneira o homem negro vive em um mundo branco, relaciona-se de modo material e imaterial com a branquitude, suas relações afetivo-sexuais são embranquecidas e são a ponte para o seu próprio embranquecimento.

Um amigo meu, ou melhor um ex-amigo, um homem negro palmiteiro e que sofre com a síndrome de Cirilo me provocou nesse ano grandes conturbações, o chamarei de Sr. J.

Nos conhecemos há alguns anos, ainda no ensino médio, éramos bons amigos, cultivei um sentimento lindo por ele e pensei que a nossa amizade poderia evoluir em algo há mais, mesmo conhecendo seu histórico de palmitagem.

bell hooks, ao falar de afetividade negra explana sobre o quanto nós negros nos tornamos duros e rígidos diante do amor, eu não sou de modo contrário, um “eu gosto muito de você” ou um “eu te amo” não saem facilmente da minha boca, no entanto eu me senti preparada para revelar ao Sr. J. o que eu sentia, fui bem escura com as palavras (afinal, ser clara é coisa de gente branca) e falei para ele sobre o que sentia, ele simplesmente respondeu que “não queria um relacionamento sério”. Fiquei em choque, e busquei analisar os porquês da reação do Sr. J. e as possibilidades de sua resposta.

Na liquidez do tempo e do amor de Zygmunt Bauman, sabemos que gostar de alguém não implica em um “namoro”, ou em um compromisso. O porquê da reação, dele é de fácil compreensão, trata-se do pânico que o homem negro palmiteiro passa diante da possibilidade de relação afetiva com a mulher negra. Caro Sr. J. não flerte com uma mulher negra, não esteja tão próximo à ponto de quase amá-la, pois vai entrar em pânico com a possibilidade de um amor negro, você ainda não sabe lidar com isso.

Ele realmente não soube reagir, reagiu pelo instinto da palmitagem. Meses depois do acontecido voltamos à amizade e tudo estava bem, até eu realizar um post no facebook, sobre a questão da síndrome que afeta vários homens negros – síndrome de Cirilo, esse é um assunto que eu sempre trato nas minhas redes sociais, afinal aflui sobre a realidade da comunidade negra. O post, dizia: Hoje estava refletindo sobre o incrível caso do homem negro que não quer “compromisso”, mas que muda radicalmente de ideia quando uma mulher branca surge em sua vida. 
Isso me lembra um Show do Chris Rock (há trechos machistas) em que ele fala o quanto o homem negro é obcecado pela ideia de ter uma branca do lado e ele complementa: ” Qualquer branca, ela não precisa ser padrão ou ‘bonita’. Ela basta ser branca.”

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E é nesse momento que eu começo a falar sobre ela, sobre todas elas, todas “as sinhazinhas bem intencionadas” apud Aline Ribeiro.

O post chegou aos olhos de uma pessoa que está se relacionando com o Sr. J., uma mulher branca que pensou ser o post uma provocação ou uma critica à relação que eles vivenciam. Essa mulher branca, que eu irei identificar como Sra. C. nunca esteve na minha lista de amigos do facebook, não me conhece pessoalmente, no entanto ficou sabendo do post e achou que ele era direcionado à ela e ao seu amado palmiteiro.

Porém, eu nem tinha conhecimento desse relacionamento. A Sra. C. me enviou mensagens solicitando justificativas pela minha postagem, ela se sentiu à vontade para me constranger, chegar até mim com um aparato de exigências. A visão das mulheres brancas sobre as mulheres negras, não mudou em muito do que a do período escravocrata, nós mulheres negras ainda somos vistas como algo público, palpável e acessível.

Ao ponto de uma mulher branca chegar a anular toda uma critica social, pensada por diversas intelectuais negras e achar que se trata só sobre ela, e perceber-se com o direito de vir até mim questionar minhas ações e posicionamentos . Essa é uma problemática da mulher branca e desse mundo que está sempre aos seus pés, elas estão fiéis a ideia de que tudo é sobre elas, sobre seus príncipes e castelos, sobre seus contos de fadas.

Mas, trago boas novas ao ego frágil e descartável das sinhazinhas, nem tudo é sobre vocês, não era sobre o seu caso especifico, não era sobre a ausência da tua beleza, uma vez que eu nem te conhecia, não era sobre ele ser palmiteiro, não era sobre ele me rejeitar, não era sobre a minha vivência particular, era sobre fatos históricos e sociais, era sobre análises de teóricas (os) negras(os), era sobre uma problemática negra. E, mesmo que fosse uma fala orientada pela minha vivência, a sua tentativa de silenciamento não deixaria de ser no mínimo racista.

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Escurecimentos para a Sra. C.:

  1. Ter pai negro ou mãe negra não te torna menos branca.
  2. Ser da classe trabalhadora ou ter pertencido à ela um dia não te torna quase negra. Negritude não é questão de classe.
  3. Nenhum trauma ou dano vivenciado durante sua vida irá te tornar negra.
  4. Seu grupo étnico-racial não se depara com problemas em relacionamentos, por pertencer a tal grupo.
  5. Último ponto e não menos importante: Você tem privilégios, os reconheça.

Agora é sobre você, mas não só sobre você, é sobre todas vocês. É sobre a sinhá “intelectual”, a sinhá “militante” que eu estou falando, é sobre a mulher branca que está em nosso meio, que é feminista e que luta pela classe, que está na academia, que tem acesso e disponibilidade para descontruir-se mas que ainda está enraizada as suas saias de sinhá. Ainda duvida da intelectualidade negra, concebe o corpo negro dentro de uma hiperssexualização, se pensa incapaz de ações racistas por se deitar com um negro, não sabe ver os dedos lhe sendo apontados, principalmente se quem os direciona são mulheres negras.

O homem negro quer enxugar as lágrimas da sinhá à todo momento, mesmo fazendo sangrar uma mulher negra.

Imagem de destaque – thinkinghousewife, pinterest