Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.”

(Racionais Mc’s. A vida é desafio.)

Eu sempre pensei sobre isso, essa frase tem caminhado pelos corredores da minha memória, tem me tomado por horas, essa frase já me fez chorar. E me fez refletir, que por eu ser mulher e negra eu tenho de ser três vezes melhor.

Ser mulher e negra é mesmo uma sensação de asfixia social como disse Sueli Carneiro, e para comprovar de fato o nosso sucesso em algo temos que o fazer com uma ação triplicada. Isso recorre aos diversos âmbitos em que participamos, vou me concentrar apenas no espaço acadêmico, para explanar minha afirmação. Uma vez, que o ambiente acadêmico é o que mais tem machucado ao meu espírito.

É o que mais tem me feito exceder forças para obter voz e alívio da asfixia social em que vivo.

Retomo, pois momentos da minha infância para trazer à tona as minhas constatações. Desde de criança dediquei-me intensamente aos estudos, o que bell hooks define como um ato de resistência, uma vez que a educação formal é algo sistemicamente retirado das populações negras.

Me apropriei dos conhecimentos, que foram fornecidos de forma nem sempre intencional ou direta, tomei posse da voz dos opressores como de sua história também, que fora sempre imposta aos currículos da educação básica, ainda que com a lei 10.639/2003 em vigência.

Me infiltrei em páginas dos livros didáticos nunca citadas pelos professores, conheci a minha voz e um pedaço da minha história. Soube da existência de Rosa Parks, Martin Luther King e Malcolm X, e meus olhos brilharam, quando eu me reconheci naquelas páginas. Eu soube de mim, eu ouvi a voz da resistência e eu sabia que ela era a minha voz.

Fiz um esforço dobrado pra ter notícias de uma história “minha”, ainda que distante da realidade brasileira, mas era algo sobre o meu povo, que até então continuava a ser ignorado.

Minhas médias eram ótimas, continuaram ótimas, mas não diziam nada sobre o meu esforço dobrado para ter conhecimento de mim, as condicionantes para a operacionalização do conhecimento são totalmente ignoradas dentro das salas de aula. Uma criança curiosa é algo perigoso, uma criança negra curiosa é algo tão perigoso, que chega a ser silenciado pelas faltas de possiblidade para fala.

As professoras nunca achavam que eu seria a aluna de “destaque”, ou a que seus métodos tecnicistas devolveriam os melhores resultados, pareciam sempre surpresas com qualquer resposta bem sucedida. Mas não exaltavam os bons resultados, lembro-me de uma das escolas em que frequentei por três anos, no meu primeiro ano nessa escola os “parabéns” eram quase que mudos, no segundo o reconhecimento para além do boletim era materializado em fala e pseudo-toques, comentavam com a minha mãe o meu “sucesso” escolar. Ou seja, após um ano o meu “sucesso” tornou-se evidente, e assim ganhei até premiações como “melhor aluna da escola”.

Os professores e professoras não levaram em consideração, que nesse um ano, as manifestações das minhas “coleguinhas” de classe não eram plenamente satisfatórias à minha existência no ambiente escolar e que durante os três anos nessa escola eu passei por várias vivências violentas, que partiam dos próprios pré-adolescentes, um grupo de meninas chegou a colar chicletes no meu cabelo, no meu cabelo enrolado, no meu cabelo CRESPO (na época eu mantinha o cabelo sempre amarrado). Um grupo de meninas composto por uma maioria branca e lisa.

Ou seja a pessoa negra na escola não basta ser eficaz, sua eficácia só é notada quando excede os números, quando se tem o melhor boletim da escola, por exemplo. A pessoa negra não apenas estuda, a pessoa negra passa por situações de violência dentro de um ambiente racista e reprodutor de racismo – que é o ambiente escolar.

A menina negra passa por experiências ainda mais específicas por ser do gênero feminino, aspectos como revanchismo povoam seu dia-a-dia, a dissociação das meninas negras ao ambiente intelectual ainda promove a dificuldade diante das relações sociais que acabam por reproduzir o machismo, elas não se enquadram nem aqui ou ali.

E na universidade…

Eu trouxe elementos do período dos meus 10 a 12 anos, que refletem situações do meu agora. Situações essas que precisam ser evidenciadas, para que o alívio seja obtido por alguns minutos.

Na universidade as coisas não são tão diferentes, recordo-me do meu primeiro período no curso de pedagogia, na Universidade Federal do Amazonas, um professor tinha nos passado uma avaliação em que todos nós encontramos grandes dificuldades. Minha nota nessa avaliação fora 9,5 – vários colegas me questionaram: “A maior nota foi à sua?” “Mas como assim?” “Tem certeza?” ”Quanto tu tirou, mesmo?”.

Eu, respondia: Sim, essa foi a minha nota. Diante das respostas, a cara de espanto vinha logo em seguida. Às vezes, eu ainda justificava afirmando que nota não mede capacidade intelectual e que eu tinha umas referências interessantes a serem compartilhadas com os colegas, quase que com um pedido de desculpas. Desse modo a pretinha humilde, se fazia presente.

Todas às vezes que eu me propus à um debate, sair por barraqueira, mesmo que eu não gritasse, mesmo que eu argumentasse teoricamente, mesmo que eu serenamente comunica-se que a fala da minha colega estava incorreta. O estereótipo da negra barraqueira era lançado sobre mim, com uma tentativa de invalidar meus argumentos.

Uma mulher branca da minha turma, chegou á levantar em meio da discussão, chegou a interromper minha fala, chegou a me intimar à calar boca, e eu que sair como a barraqueira, por defender a inserção do debate étnico-racial na sala de aula e na formação do pedagogo. Ou seja, vocês se doem quando a voz da Senzala derruba a Casa Grande.

Essa mulher em questão, hoje possui outro posicionamento sobre o debate, e até reconheceu seus disparates.

No entanto, a turma sempre apresentava-se contrária às minhas propostas de debate, professores por muitas vezes  são receptivos às questões. Mas a empatia dos professores majoritariamente brancos nem sempre se aplica, um dos professores chegou à dizer que eu era racista reversa durante um diálogo sobre cotas.

Mas, o que de fato eu noto é que cada palavra minha soa como um ataque à Casa Grande, e eu venho nesse texto lhes avisar que essa é a intenção. Porque se eu estou incomodando, então está tudo certo, se vocês se incomodam com à minha voz significa que ela está sendo escutada. E está lhes tirando a paz, e se isso eu faço tome cuidado, pois o seu atestado de branco não-racista está com o prazo de validade vencido.

Se você o conquistou por ser contra as chibatadas, mas continuou chamando preta de macaca está com um atraso secular. Se você o conquistou por aceitar que temos direitos iguais, e que me chamar de macaca é injúria racial, você está quase lá, mas ainda assim precisa renovar pra entender alguns itens, como: local de fala, apropriação cultural, palmitagem, entre outras coisas que seu atestado de não-racista da década de 60 precisa conhecer.

A universidade é racista e precisa ser colocada em negrito. A universidade brasileira apresenta-se como uma Casa Grande, já que o seu espaço é produtor de racismo, é veloz em invalidar a intelectualidade negra, já que o conhecimento lá produzido ainda são em maioria reflexos de uma sociologia branca. A voz do sinhozinho ecoa pelos corredores da universidade, Gilberto Freyre é exaltado, Monteiro Lobato não é questionado.

A universidade é racista, e não me quer. Mas eu vou ocupa-la. A Universidade Federal do Amazonas será enegrecida pela minha fala, pelos cartazes do Coletivo Negro Alexandrina, que gritam uma intelectualidade negra que a universidade tem intencionalmente desconhecido: “LEIAM AUTORES NEGROS”. Pelas intervenções das mulheres negras e indígenas do Coletivo Feminista Baré, que estão exigindo voz desde 2012.

Apavorem-se queridos docentes, técnicos e discentes racistas, pois a nossa voz será escutada, pois o silêncio da Senzala fora rompido e a Casa Grande está sendo ocupada.

1. “Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

Imagem de destaque – Elizabeth Eckford, primiera mulher negra a desafiar a imposição de escolas segregadas nos Estados Unidos. Reprodução – Brasilianas.