Essa foi a frase que uma amiga colocou nos comentários de um post em que fiz uma crítica ao Le monde diplomatique Brasil, por causa de sua capa racista, que inclusive ficou como imagem de perfil em uma rede social. Essa frase que ela mencionou não é minha ou dela, é de Sueli Carneiro que está anos à nossa frente nas lutas pelo povo negro no Brasil.

Carneiro é um nome muito caro para nós, negras/os do universo acadêmico e também de fora, e infelizmente foi quem reverberou Soujorner Truth em Durban ao dizer que mesmo passados séculos, nós mulheres negras não somos vistas como mulheres.

Mas o assunto aqui envolve política: direita, esquerda e racismo. Nas eleições de 2014 quando Dilma se reelegeu eu acabei com muitas amizades reais e virtuais porque ouvi  e li pessoas que até então me eram queridas chamarem o nordeste de curral eleitoral (e não adianta me falarem que é assim que se denomina uma localidade com tendência a certo tipo de voto, curral não é palavra ligada a gente e não admito mesmo que animalizem pessoas, pois sei o que isso faz a negras/os até hoje); negras/os e pobres de preguiçosos, assistencialistas e até exploradores do dinheiro pago para o governo pelos cidadãos de bem, por meio dos impostos que todos, inclusive essas pessoas que foram impiedosamente atacadas, pagam.

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A ideia do grupo conservador que se articulava naquele período era de negros do interior árido do nordeste eram os culpados pela reeleição de uma esquerda capenga que lhes tirava o direito de serem governados por uma direita neoliberal, patriota (oi?! Começamos com a incoerência aqui), pragmática que varreria as políticas sociais do mapa e governaria com maior transparência e visão objetiva do que é governar um país e não com a suposta caridade com que os últimos governantes vinham fazendo. Essa direita indignada com mais uma vitória, se juntou a um grupo midiático e jornalístico, e articulou do seu jeito (que envolve dinheiro, negociações de cargos políticos e etc.) uma passeata pelos cidadãos de bem. Lembro-me que nessas passeatas a população contra o governo de Dilma era bem tratada, tirava fotos com policiais, e se ninguém aí estiver com amnésia, ou preguiça para procurar num site de pesquisa, essa população era majoritariamente branca, com exceção de empregadas domésticas e babás que precisavam cuidar da família nesses eventos:

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Ok, temos uma população negra considerada burra, ignorante e mais todos os adjetivos que quisessem atrelar a um grupo social oprimido; e essa população além de tudo era de esquerda. Guardem essa informação para depois.

Diante de uma esquerda apática e festiva, os golpes políticos começaram a acontecer e eu poderia perder horas narrando o porquê de medidas provisórias serem importantes para o país não parar como a oposição queria e assim jogar a culpa na chefa do executivo, mas todas/os nós, intimamente, já sabemos que isso tudo foi um golpe político e não vou entrar nesse aspecto. Tomaram o poder. Um vice-presidente inelegível por alguns anos que em 2015 mandava uma carta no mínimo infantil reclamando por se sentir decorativo no plano do governo, em 2016 resolveu romper com a presidência, mas um rompimento no mínimo bizarro já que não abria mão de seu cargo, somente do plano de governo no qual eu e mais de 54 milhões de brasileiras/os votamos. E assim, em 2 anos um senhor extremamente conservador, autoritário e disposto a colocar a sociedade nos eixos coronelistas, virou nosso presidente. A esquerda festiva finalmente começou a acordar, mas nas manifestações suas armas eram bundalelê no Congresso, ciranda cultural, vomitaço virtual, fotinhas de #foragolpisto nas redes sociais – aí com criatividade ilimitada! De corpos em cachoeira até sopa de letrinhas tivemos, nossa esquerda festiva e coincidentemente branca, é muito criativa! Embora a esquerda do país seja um pouco mais democrática, racialmente falando, podemos ver que a vertente festiva é também composta por muitos brancos e poucos negros:

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Qual não foi minha surpresa de na semana passada dar de cara com isto:

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Em 2016, na efervescência de um estado no qual estamos perdendo direitos arduamente conquistados, como educação gratuita para todos, inviolabilidade do lar por policiais, processo legal completo antes de trânsito em julgado, professores qualificados para estarem em salas de aula, serviço social especializado se tornando programa de caridade na volta do mais que enterrado primeiro-damismo, e tantas outras perdas.

Nós negras e negros temos que lidar com essa esquerda cruel que precisa de nós para ter quórum em manifestações e passeatas, que precisa de nós para tomarmos porradas e sermos presas/os por portar a arma letal que é um item de limpeza caseira, mas que nos deixa sós quando somos arrastadas/os por policiais por quilômetros depois de sermos mortas/os por comprar pão ou estar com saco de pipoca para festa do familiar.

A capa da tal revista de esquerda traz a caricatura de um negro, meio bicho, meio gente, com pés que me lembram a descrição de Macunaíma, com dentes quebrados e lábios animalizados, sem roupa, porque roupa quem usa é gente civilizada, assinada por Jaguar.

Impressionante como o racismo é esquizofrênico e vil! A direita racista mostra fotos de negros ferrando o país, a esquerda racista em sua falta se utiliza de criações do imaginário branco para produzir negros e culpar-nos por suas perdas.

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Há erros nas duas imagens da esquerda, erros cruciais que qualquer negro pode apontar com uma facilidade tamanha que me faz pensar se brancos se acham mesmo tão inteligentes, porque o imaginário deles está nutrido de uma ideia de que nossa inteligência é mais limitada do que a de uma ameba, e aí meus caros brancos racistas, vocês são o exemplo de que a soberba é estúpida. Pontuarei alguns deles porque o texto ficaria muito grande se eu pegasse cada detalhe.

JOGO DOS ERROS

  1. Toda negra e negro desse país sempre soube que não é patrão, isso porque até quem conseguiu construir um bom patrimônio ou acumular capital simbólico é tratado como empregada/o: a mãe negra de uma criança menos escura é chamada de babá, a doutora palestrante é confundida com a moça do café, o dono do carro importando é assassinado porque o policial não pode achar que um negro pode ter um carro importado, precisa roubá-lo…
  2. Nenhuma conquista social negra foi fruto de bondade de gente branca, todas elas, desde os quilombos e revoltas são resultados de muitas lutas e mortes de sujeitos negros em ação para libertarem seus descendentes da desgraça que é esse sistema racial escravocrata do país, então não venham com essa desonestidade de que nos libertaram e se não fosse a caridade branca os negros não seriam nada, é o inverso que ocorre, os brancos fazem tanto para atrapalhar que foi necessária a intervenção do estado para políticas públicas que incluíssem negras/os e indígenas nas universidades e também em alguns do espaços da máquina pública;
  3. Brancos vêm fazendo as piores escolhas desde que o governo Lula aumentou a capacidade de consumo da classe trabalhadora. Tanto que muitos brancos nem sabem mais que fazem parte desta classe e não se acham sequer classe média, por serem donos de pequenos negócios, se acham mesmo patrões! E é essa ingenuidade branca que vota em quem gostaria de ser que elegeu milionários de direita nas eleições regionais, mas que jamais admite isso e coloca culpa na personagem meio negra, meio bicho do Le monde…. pessoas brancas, o delírio de grandeza é de vocês! Assumam seu papel na falta de consciência de quem são, nós negras e negros já sabemos muito bem quem somos no imaginário de vocês há pelo menos 500 anos, não sejam esquizofrênicos, por favor.

Estou com minha amiga e com Sueli Carneiro, entre esses posicionamentos políticos e racistas que venho acompanhando eu sou uma mulher negra, com plena convicção de que nos querem como número para suas conquistas, mas querem continuar nos usando como seres imaginários que corrompem e estragam o país, quando sem o exercício de nossas profissões esse país para.

Eu estou no grupo das pessoas negras que não vão deixar o racismo político passar como se fosse verdade, estou aqui para meter o dedo na ferida desse país extremamente racista e fascista que nos quer ao seu lado apenas quando convém. Está na hora de cada negra e negro desconstruir a ideia racista de que somos o mal deste país e nos organizarmos, pois enquanto os protestos de direita e esquerda aconteciam, somos nós e as/os nossas/os quem estávamos na  e continuamos voltando para o estágio de miséria, somos nós quem morremos cada dia mais num país onde brancos morrem menos, somos nós quem estampamos fotos e artes pejorativas, mas também somos nós que se decidirmos parar juntas/os temos mais força do que posicionamentos políticos racistas neste país continental.

OBSERVAÇÃO: hoje, 10/10/2016, o perfil do Le monde Brasil soltou uma nota com pedidos de desculpas pela infelicidade da escolha da capa, mudou a imagem do perfil por outra que diz debater o racismo. Estamos acompanhando de perto, mas já cientes do dano causado pela seleção de uma imagem por um grupo editorial, quando achamos que esta sequer deveria ser projetada, mas que tal ato falho mais uma vez explicita o que está inculcado no inconsciente coletivo sobre quem somos nós, os sujeitos negros brasileiros.

Imagens – Diálogos Políticos, Pragmatismo Político, Brasil Post, Scoopnest, Le monde diplomatique, Facebook