Minha avó teve nove filhos negros, alguns mais claros, outros mais escuros. Cinco homens negros, todos casados, tendo filhos e alguns deles, mais de um casamento. As quatro mulheres, todas negras nas diferentes gradações, permaneceram solteiras, nenhuma delas tendo relacionamento mais longos, embora tendo filhos, tornando-se mães solteiras. Cresci numa casa de mulheres negras, que não se afirmavam como negras, mas que independente disso, não condiziam com alguns discursos recorrentes sobre o feminino. Trabalhavam duro, criavam seus filhos sem participação ativa masculina, não contavam com muita colaboração dos homens para quase nada, o que também me alimentou desde cedo, quase nenhuma confiança nos membros desse gênero. Com o tempo, olhando em perspectiva da minha vida para a sociedade em que estou inserida, comecei a perceber que aquela configuração de minha família era por demais comum em famílias negras: a presença de um matriarcado, no qual a liderança se dá por uma mulher negra mais velha, que sustenta a família, tanto emocionalmente, na sua liderança, mas também nas bases financeiras. Nunca houve reclamação com relação a isso, nem um reconhecimento da existência da própria solidão. Nem elas, nem nas tantas outras famílias chefiadas por mulheres negras que conheci ao longo da minha vida em Salvador, Bahia. Já atuando como educadora, numa atividade de coleta de histórias de vida junto a 40 adolescentes, chamou-me atenção o fato de que a maioria dos relatos trazia a força da figura materna, sua garra, coragem e a absoluta ausência da figura paterna, por vezes, nem mesmo conhecida. Aos poucos, aprendi a reconhecer que aqueles traços não eram singularidades de minha história, mas apontavam para uma recorrência junto às famílias negras e mestiças, talvez podendo configurar um cenário mais amplo.

Mulheres negras, por aqui, convivem com o estímulo para o desenvolvimento de uma sexualidade precoce, sempre a serviço do outro, num jogo de poder, que não raro mais lhe subtrai que soma. Seus corpos exotizados são ressaltados em verso e prosa, pagode e funk, muito convidativos para cama, esquina, carnaval. Pouco lembrados para mesa, sala de família, cartório. Tornou-se uma tarefa urgente do feminismo negro denunciar a solidão da mulher negra, face do racismo e do sexismo, pouco discutida, sempre abafada pelas urgências da vida pública, especialmente sobre os corpos negros masculinos. Se cantamos a força da mulher negra, sua resiliência e seu poder de agregar, suportar e nutrir seus filhos sanguíneos ou não, precisamos também fazer ouvir sobre os adoecimentos gerados pelo sobrepeso da história e do presente. Já lembrou Frantz Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas, a psicanálise ignora os efeitos e doenças gerados pelas engenharias do racismo ao longo dos tempos. Ainda não sanado o problema e seus impactos, precisamos convocar vontades para discutir e trazer consciência sobre as ranhuras lançadas em nossas subjetividades após experiências de abandono, rejeição, perdas violentas, preterimentos afetivos, violências simbólicas e violências físicas.

Mulheres negras sustentam as mãos dos homens que são seus irmãos, amores, filhos, pais, tios nas múltiplas lutas de enfrentamento ao racismo, empunham as bandeiras para falar sobre genocídio da população negra, pelas mãos armadas do estado ou das milícias. Mas onde estão as mãos dos homens negros quando precisamos denunciar o aumento em 190,9% violência doméstica contra as mulheres negras em uma década. Onde estão para lutar por uma mudança efetiva na forma como suas companheiras são tratadas dentro do ambiente doméstico – porque aqui o algoz não está fora, mas dentro das casas, famílias, deitado na mesma cama, quase sempre. O raciocínio pode parecer tortuoso, mas sim, a violência física imposta sobre as mulheres negras é mais uma expressão da desumanização, que diz que as mesmas merecem menos amor, menos cuidado e são fortes o suficiente para aguentar as mais diferentes formas de dor.

Ainda na primeira metade do século XX, o antropólogo Thales de Azevedo foi um dos pioneiros nos estudos sobre a mestiçagem e as tensões entre relações raciais e relações afetivas. Contrariando a festividade do pensamento freyreano, Azevedo pontuou que as mulheres negras e mestiças subtraíam poder do homem negro em ascensão – pois na configuração familiar brasileira, a família da mulher acolhe e agregam valor ao homem. Assim sendo, o homem negro que se instruía ou ascendia economicamente, tinha preferência por relacionar-se com mulheres que pudessem somar na sua escalada e prestígio social. Pelo mesmo motivo, desde aquele período, era menos frequente as relações matrimoniais entre mulheres negras e homens brancos – ainda mais rejeitada socialmente. As pontuações do estudioso ainda fazem sentido e traduzem as relações sociais que ainda convocam uma urgente reinvenção. Mesmo entre militantes da luta racial, a preferência pela mulher branca e a diferença do tratamento é realidade notória e sentida – o que não deve servir para ser mais um fator de competição perversa entre mulheres negras e brancas, mas cuja compreensão dos mecanismos e da engenharia é fundamental para o processo de empoderamento e auto-estima. Porque é lindo pensar que o amor não tem cor, que podemos amar para além das peles. Mas seria mesmo lindo se a engenharia do amor pudesse apresentar estatísticas diferentes daquelas que falam das nossas opressões: se a violência doméstica cresce entre nós, ela recua entre as mulheres brancas e de acordo com dados de 2010 do IBGE, 39,9% dos homens negros tendem a escolher mulheres negras como parceiras.

Nossas relações afetivas urgem de serem descolonizadas. É inspirador pensar em uma sociedade matriarcal, onde a mulher tem poder, força, liderança. Mas é duro pensar que essa mulher acumula funções, convive com o abandono e a solidão, não encontrando no seu irmão de cor um parceiro para reversão de realidades. Tratar do tema da solidão da mulher negra é tão urgente quanto da violência do estado – inclusive, porque nessas relações micropolíticas, nossa condição de interferência, transformação, reinvenção estão ao alcance das nossas mãos. É tempo de reconhecer que nossas relações, nossos afetos são tão mais políticos – para o mal e para o bem disso – do que pensa nossa vã filosofia. Hoje domingo, leio sobre poliginia e consigo entender melhor os homens de minha família, perdoando seus arranjos – menos por eles, mais por mim, preciso ler o mundo e me libertar daquelas questões da infância. Entendendo as operações para não mais aceita-las nas relações que venha a construir. Buscando construir outra história para mim e para as minhas. E que nas nossas famílias possamos descolonizar a velha História.

Bibliografia

FANON, Fritz. Pele negra, máscaras brancas. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira, Salvador : EDUFBA, 2008.
PACHECO, Ana Claudia. Mulher Negra: afetividade e solidão. Salvador: EDUFBA, 2013.
SCHWARCZ, Lília. O espetáculo das raças. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Imagem de destaque – Le Jolie Coin