Fui acusada de ter um discurso panfletário, típico de quem faz “feminismo blogueiro” e participa de “movimento social de internet”.

À PRIORI fiquei extremamente ofendida. Como alguém que não conhece os aspectos pessoais do que eu acredito, em termos políticos, pode me acusar de estar restrita a uma conduta falsa e pretensamente revolucionária; quando eu não acredito em nenhuma dessas instâncias?

No segundo seguinte, comecei a compreender que talvez seja eu quem não tenha, ainda, um entendimento real de onde eu estou na cadeia alimentar da militância de internet.
O que sou eu senão uma feminista blogueira que pratica um movimento social na internet? Ora bolas, caçarolas: as coisas mais importantes da minha trajetória enquanto ser que pensa, debate e policia suas condutas pessoais e opiniões políticas está justamente gravada nos dados que compõem o web espaço do blogueiras negras.

Está aqui o meu primeiro texto, que marca os meus primeiros contatos com o movimento negro dentro da minha universidade. Aquela era eu, super esperançosa, meio boba e ingênua, com um discurso massificador de militância negra que me constituiu enquanto ser evolutivo.

Aqui também está a minha obra prima. A minha ruptura. Meu parto de um novo “eu”: extenso, dialético, violento. Um texto que demorou meses pra surgir, me deixou noites sem dormir, me trouxe uma série de respostas violentas que ninguém ousou publicar. Esse foi um divisor na minha conduta e no meu entendimento do que é o feminismo negro e interseccional que eu gostaria de construir e me trouxe o entendimento de que de nada valeria um senão de discursos mastigados dentro do movimento estudantil sem uma conduta pessoal que refletisse os meus princípios.

Conheci algumas das melhores mulheres do mundo nesse blog. Li algumas das coisas mais geniais e intangíveis nos perfis de algumas dessas mulheres e que a académica pode nunca acessar.

Me recuso a dar à academia a autoridade de determinar sob quais bases as minhas reflexões políticas serão construídas. E não porque eu não tenha lido suas correntes e teóricas ou porque não compreenda a importância de dominar espações de poder e me expressar segundo seus códigos. Mas porque a academia está sempre um, dois ou dez passos atrás do que a velocidade da internet me trouxe em termos de feminismo. A realidade.

Eu faço parte de um movimento social que só é possível, na forma e com a força que existe, porque existe a internet. Porque existe um canal de conexão e contato entre mulheres e saberes não formais que possibilita um tipo de experiência que a academia demorará anos para classificar como relevante.

O Blogueiras Negras me apresentou Paula Chiziane, Chimamanda, o Reaja, Black Lives Matter e o Mães de Maio; que, não por acaso, foi o tema do meu primeiro artigo científico na academia, lá em 2013.

Então cara, sinceramente, eu sou feminista panfletária, blogueira de internet.
E, ao contrário do que você pensa, isso não significa uma estática de pensamento. Isso significa que tudo que eu conheço, penso e alcanço pode ser (re)definido na velocidade de uma conexão.

Isso é poderoso.

É poderoso porque quando mulheres se encontram e panfletam diuturnamente seus direitos, isso promove uma mudança de comportamento social coletivo. Ainda que mínima.
E não, não estamos deixando de enfrentar nossas questões nas trincheiras do mundo real. Só ganhamos uma nova forma de nos posicionar.

Aliás, obrigada pela provocação.

Além de um texto que simboliza uma re-conexão com esse blog que, por vezes, me aliviou a vida só por ser um espaço pra desabafar, isso me fez relembrar a importância das coisas que aparecem na minha timeline na resolução e na percepção dos conflitos que eu vejo como extensionista!

Enfim, esse texto é uma ode ao feminismo blogueiro, a esse site e às mulheres que o coordenam, por tornar esse espaço possível e trazer pro mundo concreto todas as microrrevoluções cotidianas que nascem dos nossos contatos intra-net!

Imagem de destaque: Everyday Feminism