Que linda voz! Por longos segundos, a música ficava em segundo plano, e aquela voz em primeiro. Eu não conhecia, mas de imediato havia me encantado. De quem é essa voz? Eu me perguntava. Engraçado, ela parecia leve e, ao mesmo tempo, forte. Não pesada, não fraca. Leve e forte. Leve pela sonoridade, forte pelo impacto que causava, em poucos segundos entranhando o mais profundo do meu eu. A voz cantava:
“[…]
Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
[…]”
(Trecho da música “Dura na queda”, de Chico Buarque, versão de Elza Soares).
Assim que o vídeo terminou, fui ver quem era a dona da tal voz. Mal sabia eu que aquela seria uma das raras vezes que eu escutaria essa voz cantar. Luz Ribeiro! Mas espera, eu conheço essa mulher, não poderia esquecer esse sorriso, esse par de olhos, esse jeito. Ela canta! Eu não sabia. Confesso, a vi dançar antes de a ver cantar. Luz Ribeiro, grande poeta. Me joguei em seus textos, suas palavras, seus sentimentos, e a partir dai passei a entender o porque sua voz parecia leve e forte. São assim também suas poesias, leves e fortes, em relação a todos os assuntos, mesmo os que falam da nossa dor. Foi assim quando Luz Ribeiro escreveu sobre Luana. Ainda dói ao falar e lembrar de Luana, dói em saber que ela não está mais aqui. Mas é preciso dar voz à Luana, as pretas, as mães, as lésbicas, a nós…
Luana Barbosa dos Reis, mãe, preta, periférica e lésbica, quem a escuta? De quem e para quem é a voz de Luana? Quem a escutou? Luana tem voz. Repito,quem a escuta? “LUANA BARBOSA DOS REIS, PRESENTE”, poesia de Luz Ribeiro, é forte na mesma medida em que nos faz ter força e resistência para a voz de Luana nunca ser esquecida. Assim como Luz define: “…minha revolução é poesia, desculpa se me falta o lirismo… é que sangue jorrando não rima com alegria, ferida exposta não rima”. Sangue jorrando daqui e dali, lesbofobia, racismo, abuso sexual, machismo, ali e aqui. Estremeço e me perco num mar de fragilidade. Mas há que resistir. Nenhuma de nós será invisível, nenhuma de nós ficará sem voz.
Volto a repetir, aqui no Brasil há muitas e muitas vozes falando da gente, para a gente, sobre a gente. Vozes com proximidade às nossas próprias histórias. Vozes femininas, pretas e talentosas. Seja como for ou do jeito que for, o caminho é a visibilidade e a resistência. E mais um recado importante: ao ouvir ou ver uma preta que te encanta, te inspira, te ilumina de alguma forma, a conheça, procure seu trabalho, fale com ela, mostre-a para outras pretas. Espalhe as poesias, espalhe as músicas, dê visibilidade a poeta/cantora, dê visibilidade as nossas histórias, a nossa dor, a nossa voz. Compartilhe nossas vozes.
“as minhas melhores poesias
eu nunca sei onde estão
e quando as encontro
são rascunhos inacabados
de histórias finitas
minhas melhores poesias
estão destinadas
a permanecer esperando
por mim”
Há certas coisas que eu não consigo colocar em palavras, ou simplesmente não há palavras que descreva. E tudo que a poesia da Luz representa é uma dessas coisas que é difícil colocar em palavras. É preciso ler, conhecer e sentir tamanha maravilhosidade, particularmente. É isso: ela representa. Luz Ribeiro é poeta, é performer, é mulher, é negra, é paulistana, é feminista, é filha, é irmã, é periférica, é atriz, é aquela que escreve sobre nós, para nós, para o mundo. Por fim, quero terminar dizendo que Luz se transforma em Luzes, daquelas que refletem no céu em dia de eventos. Luz é poesia, Luz é resistência, Luz é reflexão, Luz é voz.
“[…]
uma legião vestida de preto que não abaixa a cabeça
não se contenta  com lei áurea, quer mais é ser realeza
vai devolver com diplomas cada soco e esporro
aqui ninguém mais marca toca e precisar asfixiamos com gorro
não alisarei meu  cabelo para ser aceita
hoje sei que nossa religião não é seita
todos esses mal tratos é uma dívida sem reparação
por isso eu quero cotas e tudo que houver cifrão
sou afilhada bastarda e não quero ser filha da pátria
sou a própria puta por tantas vezes sexualizada
minhas ancestrais tiveram as saias levantas
e daí que surge tanta gente miscigenada
por isso  não  vejo  beleza no processo de miscigenação
e nem quando os brancos exclamam: eu tenho  sangue de negão
essas frases não provam nada e só trazem mais dor
então faz um chá de bom senso e tome um gole por favor
não sou  filha de pardal, muito  menos de mula
não tenho didática  minha ira não cabe em bula
e se pode não ser menos preconceituoso, disfarce
pegue suas falsas verdade e engula”
(Trecho de “Dos dias de coléra”, de Luz Ribeiro)
Página no fb: https://www.facebook.com/poetaluzribeiro/
Blog: http://ribeiroluz.blogspot.com.br/
Entrevista para coluna ver(te)b(r)al, projeto de Tate Ann para o Blogueiras Negras:
http://blogueirasnegras.org/2016/01/09/coluna-vertebral-entrevista-luz-ribeiro/ Primeira parte
http://blogueirasnegras.org/2016/01/23/coluna-vertebral-entrevista-luz-ribeiro-parte-02/ Segunda parte

Imagem – Jezzee, Luz Ribeiro, Aretha Franklin, Drik Barbosa e Sandra de Sá