anos passaram e em dezessete anos
conheci-me negra.
negra, o que seria?
negros eram a história passada
soterrada em milhões de falsas analogias
onde, em busca de liberdade,
a alforria nada lhes permitira.
construiu-se tantas coisas,
tantos cultivos
e o que se lembra, em juízo?
apenas do trabalho escravo
escrito.

imaginei-me tão negra, quando me vi conhecer
olhava minha pele receber a água do banho
e fazer-se cachoeira na mais perfeita
correnteza.
quis transformar em mármore todas as lembranças
de uma preta pequena em colegial.
lembrei de como me tornei forte através de tanto
piso.
lembrei de como hoje consigo entender tão bem
meus negros olhos
minhas negras mamas
meus negros cabelos
meus negros cachos
meus negros pêlos
meus negros fios e
toda a luz que emana de minha negritude.
o que me emociona não são capas de revistas fartas
de mulheres negras, e, longe disto
almejo para minhas conterrâneas
a liberdade sonhada que perpasse revistas e papéis
e sobrevoem os céus imensos, azuis cor de calor
de nossa Mãe África.

aprendi depois de sofrer,
na admissão de que ainda sofro comigo mesma
que não quero e no fundo nunca quis ser ninguém
que não fosse eu mesma, preta mesma, da cor de minha pele
ao bronzeado de um sol praiano.
sempre quis e sempre quererei o que se quer para uma preta
a felicidade plena em simplesmente ter orgulho de quem sou
de quem se é
de quem se foi.
saber que o povo que lutou, construiu filosofias, teologias
matemáticas, arquiteturas, geografias e ciências
é o povo preto, que não somente carrega consigo uma história
de violações oprobriosas,
mas que tem em si a força de uma cultura inteira
de uma Mama África inteira
cheia de possibilidades e criações
que brilham no horizonte longínquo deste nosso sol.
quisera eu desde pequena ter lido “os cabelos de lelê”
ter pensado como lelê ao descobrir que ter cachos é
pra quem nasceu com cacho
a melhor opção.
porque meu cabelo não é nem um pouco feio, bagunçado e “armado”
ele é ondulado como ondas, ondas do mar
ondas de branca espuma
que banham a Bahia do preto nordeste brasileiro.
ele é espirais onde meus pensamentos pulam,
alegres e contentes,
brincando de Tarzan.
e sobre minha pele preta, bom…
o que posso falar?
preta sou.
preta quisera eu ser.
preta serei no dia de amanhã.
preta são as minhas raízes,
preta é a minha luz,
preta é a minha história.
essa é parte de mim,
o sangue e a força de meus ancestrais,
de minhas mulheres guerreiras herdadas em minha história
criadas de senhores,
livres por direito
cada uma delas, e cada um deles
estão em meu preto coração
pulsante, vermelho também,
em minha preta história, de luta, força
sorriso e tristezas.
se aqui estou e faço parte, ora pois,
de negros poemas
de negras histórias e de negras esperanças,
aqui estou eu,
de negra vontade,
de ver correr livre um povo livre
que sempre foi livre
que sempre teve o direito à isto
e que existe em pretas vidas
para pretas histórias construir
em nome de pretas liberdades.
faço parte de uma imensidão calorosa
onde só aquela que é preta, descendente de preto
cuja preta alma reflete todas os livres de traços
de pretos ancestrais
sabe deste sentimento, vívido
que aqui vos falo.
para mim,
e para o mundo.

Imagem – T. S. Abe