Os livros me protegeram. Foi com os livros que criei um universo inteiramente à parte do mundo real, no qual mulheres negras – como eu – eram a régua para medir o mundo. Ler mulheres negras é sempre ação ativa em espaços onde a norma são homens brancos. Dificilmente é algo que simplesmente acontece. Se decide. A primeira vez que decidi que iria ler um livro de uma autora negra ainda era adolescente e na semana participei de um sarau, em meio as apresentações, a pergunta “ quantas mulheres negras você leu?”, dirigida a plateia, me atingiu de forma perturbadora.

Ainda hoje meus olhos se enchem de lágrimas ao lembrar da sensação pela qual fui tomada ainda nas primeiras páginas de “Um Defeito de Cor” de Ana Maria Gonçalves, minha primeira autora negra. Esse livro marca o início da minha extrema sensibilidade a escrita, marcada pelos constantes abalos, de dor, alegria e reconhecimento. A busca por um livro, acabou me esbarrando em outros. E o tempo passou. Essa lista é, em parte, retrato da minha tomada de decisão e do tempo.

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# Um Defeito de Cor (Ana Maria Gonçalves): Como já disse esse foi o meu primeiro, e acho Ana Maria Gonçalves uma ótima maneira de começar. Um Defeito de Cor é um romance histórico narrado por Kehinde, uma africana cega, que no final do século XIX deseja retornar para África na busca de seu filho. Com foco na história da escravidão e nas relações entre Brasil e África as mais de 900 páginas (isso 900 páginas!) serão devoradas em meio ao controle dos fatos históricos, crítica social aguçada e ao fôlego investigativo invejável da autora.

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# Insubmissas lágrimas de mulheres (Conceição Evaristo): Terminei de ler esse livro a exatos sete dias, por indicação da querida Dayse Sacramento, e digo, se o Brasil está em meio a chamada “Primavera Feminista” precisamos conhecer esse livro e essas histórias. Antes de falar do livro, vale sempre lembrar que uma das maiores injustiças produzidas pelo nosso modelo de mercado editorial é que uma autora como Conceição Evaristo seja desconhecida do grande público. Conceição Evaristo, mineira radicada no Rio de Janeiro, é autora de obra vasta e variada, para quem a expressão prosa poética parece ter sido inventada. Insubmissas Lágrimas de Mulheres é uma antologia de contos, treze ao todo, narrado pelo ponto de vista feminino. Cotidiano, violência doméstica, amor e tradição se entrecruzam na vida das mulheres negras que protagonizam as histórias.

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# Amada (Toni Morrison): Li amada porque Toni Morrison ganhou o prêmio Nobel, pelo menos li cedo Amada porque a Toni Morrison ganhou o Prêmio Nobel. Esse romance histórico é considerado uma das maiores obras de ficção sobre o penoso processo de emancipação da escravidão nos EUAS. Ambientado em 1873, Amada conta a história da ex-escrava Sethe e da relação com o fantasma da morte da sua filha mais velha, Amada. Um texto melódico, relação mãe e filho e múltiplos ponto de vistas sobre o terrível legado da escravidão garantem a grandiosidade dessa obra.

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#Americanah (Chimamanda Adichie): Americanah é um sucesso editorial, um verdadeiro Frisson, é sem dúvidas o livro perfeito para dar de presente para sua sobrinha adolescente, mas não é por isso é um “livro menor”. Americanah conta a história de Ifemelu, nigeriana que no início da juventude migra para terminar a graduação nos EUA e assim se separa de seu primeiro amor, Obinzé. O ponto de partido é a revelação que Ifemelu está voltando para Nigéria, iniciando assim todo o jogo rememorativo que irá dar o tom do livro. Discriminação racial, migração, crítica política e um afiado senso de humor fazem desse livro leitura obrigatória.

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# A Cor Púrpura (Alice Walker): Todo mundo já viu, ou conhece o filme, né? Mas muita gente não sabe que essa grande produção cinematográfica foi baseada no livro homônimo de Alice Walker, importante intelectual e ativista americana. No início o século XX, a menina Celie, imortalizada no cinema por Whoopi Goldberg, é doada para Mister um viúvo de uma comunidade rural da Geórgia. Atravessando quarenta anos da vida de Celie Alice Walker produz um duro retrato da condição feminina negra pobre nos EUAS do século XX. Mesmo que você já tenha assistido o filme pode preparar o lenço.