Esperei muito tempo pela oportunidade de ver O Topo da Montanha e a expectativa acumulada foi equivalente ao tempo e à distância geográfica: enorme. Quando a peça entrou em cartaz no Teatro FAAP em São Paulo, eu ainda morava em Belém. Acompanhei pela internet o impacto em algumas amigas minhas, mas parecia muito improvável que eu  assistisse. Hoje moro em Salvador e como a peça saiu em turnê, a oportunidade apareceu. Bom, quando isso acontece, quando espero demais por algum espetáculo (seja teatro, música, cinema, livro…), eu busco ler pouco ou quase nada. Não gosto de me influenciar, prefiro sentir as coisas espontaneamente. Então eu li quase nada sobre O Topo da Montanha.

Era dia 30 de outubro de 2016. Cheguei em cima da hora ao Teatro Castro Alves. Do ônibus avistei aquela multidão negra de mulheres jovens, mais velhas, adolescentes. Rapazes, homens mais velhos, homens maduros. Eu só conseguia enxergar turbantes, dreads, tranças e blacks à minha frente. Consegui entrar apenas depois da terceira campainha. Luzes da plateia apagadas e as do palco acesas. Reverendo Martin Luther King sentado.

Aos poucos fui sendo envolvida pelo diálogo de Camae e Luther King. Ele, professoral. Ela, provocativa. E aqui preciso avisar: esse texto não se predispõe a ser uma crítica de teatro. Camae e Taís me impactaram. O que elas propõem é um levante das mulheres negras nesse Brasil. Taís me fez chorar copiosamente com sua inacreditável Camae. E essa é a motivação e emoção desse texto: o revolucionário teatro negro de Taís Araújo e Camae.

A atriz e pesquisadora Evani Tavares Lima, dá um sentido a teatro negro que eu gosto muito, em um artigo escrito em 2011, ela explica como enxerga o conceito de teatro negro:

O conjunto de manifestações espetaculares negromestiças, originadas na Diáspora, que lança mão do repertório cultural e estético de matriz africana, como meio de expressão, recuperação, resistência e afirmação da cultura negra. (Evani Tavares Lima, 2011, p. 82)

E conta que a criação do Teatro Experimental do Negro em Outubro de 1944 no Rio de Janeiro, foi um divisor de águas no teatro nacional, pelas ações políticas explicitamente demarcadas e organizadas e pela atuação na formação e educação básica da população negra. O Brasil tem lastro em teatro negro. O movimento negro brasileiro, da Amazônia ao Sul do país, tem lastro em atuações políticas de combate ao racismo pelo Teatro. E O Topo da Montanha reacende uma chama muito muito muito importante. Aline Djokic, mestra em Literatura Brasileira, uma vez escreveu em seu Facebook que movimento negro é tudo aquilo que envolve o movimento de um corpo negro. Taís e Camae são corpos negros em movimento. Taís e Camae são, portanto, dois movimentos negros, dois atos políticos. E o teatro negro engrandece!

Camae não fala apenas com o reverendo Martin Luther King Jr, ela subverte o espetáculo, subverte a ordem, subverte o protagonismo de um mártir negro, para falar comigo e com todas aquelas mulheres na plateia, juntas vibramos a cada chave de debate sobre mulher negra que ela nos presenteava. Camae fala de hierarquia de opressão, fala de protagonismo, invisibilidade, fala da solidão e da sexualização de mulheres negras, de ancestralidade, de Ubuntu, de violência, amor, vida e …. morte. Camae faz chorar e rir não apenas porque ela é engraçada ou dramática, mas porque é capaz de fazer com que nos reconheçamos nela.

Mate o homem branco. Não com suas mãos. Não com suas armas. Mas com sua meeeeeeeeente! Estamos brigando para sentar no mesmo balcão, mas POR QUE, meus irmãos e minhas irmãs? Nós podemos construir nossos próprios balcões. Nossos próprios restaurantes. Nossos próprios bairros. Nossas próprias escolas. O homem branco não possui nada que nós queiramos. Foda-se o homem branco! FODA-SE o homem branco! ¹  (Trecho de uma fala de Camae traduzida do texto original de Katori Hall)

Camae é Coretta King. É Sojourner Truth. É Nina Simone. É Assata Shakur. É Neuza Santos. É Lélia Gonzalez.

Ela é a poética de Aline Djokic, a cientificidade de Patricia Hill Collins, é a energia de Beatriz Nascimento. Ela é a minha emotividade. Ela é a juventude de Jéssica “Dandara” Santos. A sabedoria de Carolina de Jesus. É cada uma das mulheres negras que já aceitaram, passaram e aceitarão o desafio de receber o bastão. Porque nenhuma de nós sozinha  tem a força de todas nós juntas. Camae é muitas de nós na Marcha das Mulheres Negras de 18 de novembro de 2015 (ops, Camae não gosta de marchar).

Ela é o nosso combate ao racismo e ao machismo. Ela é aquela que, ao menor sinal de desqualificação, reage. Ela é aquela não mais aprisionada. Ela é racionalidade, amor, fé. Como Camae nós somos dóceis, temos maus modos, sorrimos facilmente …. nem sempre temos uma linda e romântica história para contar.

Rejeitando a fantasia da submissão amorosa, pode surgir uma mulher preta participante, que não reproduza o comportamento masculino autoritário, já que se encontra no oposto deste, podendo assim, assumir uma postura crítica intermediando sua própria história e seus ethos. Levantaria ela a proposta de parcerias nas relações sexuais que, por fim, se distribuiria nas relações sociais mais amplas (Beatriz Nascimento, 1990, p. 129).

Passei aquela hora e meia completamente imersa em Camae, agradecendo Taís em silêncio,  lágrimas e gargalhadas. Mas às 6:01 p.m. aquele som estrondoso me fez pular na cadeira do Teatro Castro Alves. O mundo sofreu com a morte de Martin Luther King Jr, Camae, mas você, irmã, você agora mora dentro de mim, como um anjo.

Obrigada Camae!

Obrigada Tais!

Obrigada Katori Hall!

Vocês são nossa inspiração, nossas asas, nosso bastão.

¹ O Topo da Montanha é uma tradução da peça The Mountaintop escrito pela escritora, jornalista e atriz estadunidense Katori Hall, lançado em 2009. Que esse espetáculo vire documentário, minissérie, fanzine … que as asas de Camae voem longe e as poderosas preces de Bernice nos abençoem. Para baixar o texto original da peça, em inglês, clique aqui.

 

REFERÊNCIAS:

LIMA, Evani Tavares. TEATRO NEGRO, EXISTÊNCIA POR RESISTÊNCIA: PROBLEMÁTICAS DE UM TEATRO BRASILEIRO. Repertório, nº 17, p.82-88, 2011.2. Disponível em <https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/5665/1/5729-15715-1-PB%5B1%5D.pdf >

RATTS, Alex. Eu sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. Imprensa Oficial, São Paulo: 2006. Disponível em <https://www.imprensaoficial.com.br/downloads/pdf/projetossociais/eusouatlantica.pdf >