O sucesso tem cor? Ele está ligado a posição social? Se você tem mais oportunidades do que a outra pessoa, da onde você veio, quais são as suas condições. Bom pode até ser que sim, com um país tão preconceituoso como o Brasil o sucesso é acessível para poucos,  os padrões de beleza, escolaridade e origens fazem com que alguns consigam outros não. Mas hoje a matéria vai mostrar outra vertente,  o sucesso está além de reconhecimento público a sua essência é muito mais que mostrar para terceiros que você conseguiu seus objetivos. E nem mesmo sua cor pode impedir o que o seu esforço conquistou.

Primeiramente para se entender melhor a proposta da matéria, vamos compreender o conceito da palavra “sucesso” – Não se trata apenas da consagração e do reconhecimento público, aplausos, presença frequente  na mídia ou até mesmo na profissão que a pessoa exerce. Mas o sucesso é algo ainda mais consistente é o reflexo social que a realização pessoal de algumas personalidades pode ter. Ou seja, metas individuais, particulares a serem atingidas, podem transformar-se numa satisfação compartilhada coletivamente e servir de exemplo a comunidade em geral.

Pois bem, apesar dos poucos exemplos visibilizados, a comunidade negra conhece o real sentido do sucesso, justamente por causa dos profissionais negros que se destacam, além dos exemplos na nossa casa, famílias e comunidades, independente em que ambiente se está, qual profissão se tem. Temos carências de exemplos a serem seguidos, sempre digo que a comunidade negra precisa de exemplos, precisa de pessoas para se espelharem, por conta da nossa trajetória escravista e de inibição somos totalmente retraídos quando se fala de sucesso. Mas como disse no começo, o sucesso tem várias vertentes e objetivos, ele pode ser algo midiático onde você e o mundo reconhece e também pessoal, algo que você quer conquistar para sua auto-estima e romper barreiras que só você mesmo sabe. No “mundo negro”, se assim posso dizer, esse sucesso tem mais peso, temos a responsabilidade, pois levamos  conosco milhares de pessoas e histórias. A construção do sucesso para o negro vem com a bagagem de superação ou melhor auto-superação. Afinal, historicamente, não se pode ignorar que mais que auto-superação, os afrodescendentes brasileiros- e de outros países onde a presença negra decorre dos trabalhos escravo – tiveram que lutar contra um estigma terrível. As vitórias dessas personalidades da mídia e de pessoas comuns refletem-se como vitórias comunitárias.

Eu quando vejo artistas, cantores ou profissionais bem qualificados negros (as), seja qual você esteja imaginando agora,  nacionais ou internacionais penso logo na palavra “responsabilidade social”, responsabilidade em ser espelho: suas histórias, conquistas, o amor próprio, o reconhecimento pessoal e público, as derrotas, as dificuldades e sobretudo a construção de uma identidade com negro bem sucedido, vai muito mais além; por trás deles teve e tem uma história de superação e confiança em seu potencial, que também é nutrido pela pertença a comunidade. Não permitiram ser mais um nas estatísticas, não deixaram os estereótipos abalarem seus sonhos e objetivos – apesar do racismo latente. Tinham tudo para desistir ou até mesmo nem tentar já que suas condições não eram favoráveis. 

Em um artigo escrito pelo editor executivo da Revista Raça Brasil, Maurício Pestana e hoje secretário da Seppir – Secretaria de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo, na edição de dezembro de 2012, ele contextualiza uma questão bem discutida e analisada nos dias de hoje, e tem tudo haver com a matéria da edição passada da coluna Identidade. Se o negro brasileiro está em evidência ou não, na verdade as palavras usadas por ele foram “Se o negro está na moda ou não” (sic). Antes de entrar no assunto, quero explicar porque escolhi este artigo e porque desta data em especial, primeiro eu achei interessantíssimo o que ele disse e também fiz uma comparação o artigo foi escrito em 2012, há quase três anos atrás e as mesmas situações esboçadas por Maurício, continua. Elas pouco mudaram e isso me traz a sensação de não avanço e quis mostrar a vocês o quanto é importante se renovar porque senão a única opção será bater palma para quem diz algo como dito por Maurício – de que ter sucesso é “estar na moda”.

Voltando, neste artigo ele relata vários acontecimentos marcantes que nós negros conseguimos durante o ano de 2012, como na educação, onde um recorde foi batido, pois mais de 100 universidades federais adotaram as Ações Afirmativas para negros e o Supremo Tribunal Federal aprovou por unanimidade as cotas raciais. Na moda, onde veio por fim o acordo entre o Ministério Público e a organização da São Paulo Fashion Week, onde não burlou o números de negros nas passarelas e sim aumentou, com um crescimento de 15% em relação a temporada de 2011; e mostrou nomes já conhecidos de modelos negros (as), mas também rostos novos. Na TV minisséries como: Suburbia e a novela Lado a Lado, onde mostraram o protagonismo e o percentual de negros no elenco, mesmo que repetindo os assuntos, sempre com o esteriótipos já manjados como: a exploração da sexualidade negra. No cinema brilhamos como o lançamento do documentário “Raça” de Joel Zito Araújo, destaque do Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Sem esquecer do dia 19 de novembro, com a posse de Joaquim Barbosa como o primeiro negro a presidir o Supremo Tribunal Federal – avanços? Não ousamos responder…

Com todos esses acontecimentos, que claro não foram conquistados da noite para o dia, fica a impressão que estamos crescendo e caminhando para a igualdade que tanto queremos. Assim como o artigo da Raça Brasil, podemos perceber nitidamente que esses caminhos já conquistados não mudaram a real situação do negro, transferindo para os dias atuais, agora 2016. Vemos ainda problemas básicos a serem resolvidos e esses problemas se não forem resolvidos dificilmente conseguiremos avançar como realmente queremos. Notícias reais como o salário de um trabalhador negro ainda continua muito mais abaixo de um trabalhador branco. A juventude negra sofre com as estatísticas, onde jovens de 17 á 24 anos são o que mais sofrem com a violência e o que mais morrem no Brasil. Na política, não houve nenhum avanço, São Paulo mesmo houve um retrocesso, onde na Assembléia Legislativa, entre 94 deputados, havia apenas dois negros, agora só um. Sem falar de vereadores, na Câmara Municipal da capital apenas um e nenhum prefeito negro.

Mostrando esses números e estatísticas, não conseguimos nem em 2012  e muito menos 2015 colocar o negro em uma posição estratégica e de relevância para o nosso crescimento; crescimento como sociedade. Ainda não estamos na frente de grandes empresas, na economia ou até mesmo em locais que fazem a diferença para dar exemplo a comunidade. Com isso fica a entender que até podemos estar na “moda” (sic), mas ainda há muito a se andar para estar em um posição de diferença.