Chegar aos 30 anos, foi bem complicado. Afinal chegar aos 30, conforme matérias diversas, é chegar a fase madura e de estabilidade. Escrever sobre isso hoje, me faz lembrar tantas dores e decisões erradas, que essa transição trouxe. Segundo as previsões, com essa idade, era para eu já ter conquistado e realizado os meus sonhos mais básicos, ou seja, ser mãe, estar casada e caminhando para não ter problemas financeiros. O que essas projeções e principalmente EU, não levei em conta foi que eu sou uma mulher negra. Que sou filha de gari e uma doméstica, moradora de periferia e oriunda do ensino público. Não lembrei a época, que existe dados que fazem com que aos 30 ou 40 anos, eu não tenha a projeção de um Brasil de berço esplêndido que existe para outros segmentos.

Lembro exatamente do dia que fiz 30 anos. Lembro que chorei muito nesse dia. Chorava de forma desesperadora por me sentir fracassada, sem realização pessoal, sentia como se fosse uma incompetente que não cumpriu as metas determinadas, ou seja, uma nada. Neste dia, alguém muito especial, me lembrou que não podemos traçar nossas transições de idade pelos requisitos sociais. É preciso levar em conta que mesmo entre pessoas da mesma cor, existem trajetórias que modificarão o espaço onde cada uma chega. Uma pessoa que gosto muito, sempre falava sobre nossos projetos de vida e metas. Ela lembra que temos dois problemas na construção das nossas trajetórias. O primeiro, é que não pensamos o nosso futuro. Passamos tanto tempo tentando driblar a morte ou fatores que nos colocam pra fora da realização pessoal, que nem imaginamos construir um futuro. Hoje vejo que os poucos de nós que fazem isso, faz por ter o que ela chama de retaguarda. Sim, pessoas que dão o suporte, aconselham e contribuem para que esses cheguem em suas metas – os famosos mentores, coach ou padrinho.

Ninguém chega a lugar nenhum sem ajuda e no nosso caso, como não temos uma rede ou pessoas que protejam nossa retaguarda, quando damos conta, o tempo pode ter passado. Ele não passou por que não queríamos nada, passou por que nossa sobrevivência sempre foi imediatista, não temos a cultura de nos preparar a longo prazo. Isso coloca nossos sonhos e metas condicionadas a nossa idade, e isso constrói a auto sabotagem. Entender que às vezes, a vida não flui de acordo com o tempo de nossos sonhos, é central para que não desistirmos de realizar algo. Levei 7 anos pra me encontrar, e como no candomblé, tive que esperar para descobrir como ter foco e força pra tornar real o que almejo. Estou em um processo constante de comportamento auto avaliativo (leio muito sobre metas, sonhos, objetivos, planejamento pessoal, tenho mentores), coisas que fazem com que eu me conheça um pouco mais a cada dia.

Hoje vejo meus 37 anos como um processo de amadurecimento, fazendo com que eu construa cotidianamente pequenas ações para chegar ao meu grande objetivo.
Ainda não tenho um emprego estável, mas sei qual caminho percorrer para alçar os voos que venho planejando. Ao contrário de quando eu tinha 30 e me permitir ter uma relação abusiva, não abro mão de mim e da minha vida para viver em função deste amor. Incentivo meu companheiro a fazer o mesmo. Não consegui aos 30, adquirir a expertise que narro agora, mas vejo que aos 40 esses obstáculos e empecilhos serão único e exclusivos da minha mente e removo cotidianamente com atitudes, pensamentos e ações que considero certas. Aprendi a ser de candomblé. Aprendi que pensamentos e palavras tem força. Aprendi que não “passei da idade”, ao contrário, nós é que temos medo de sair do lugar-comum. Nos condicionamos a coloca amarras e a nossa felicidade sempre nas mãos de outras pessoas.

Quero dizer com tudo isso, que não precisamos ser melhor do que ninguém para ter sucesso em nossa vida. Precisamos tirar da cabeça essa mania de ficar se comparando aos outros. Cada pessoa tem uma história diferente, e portanto, metas diferentes a conquistar na vida. Não ter encontrado algo que satisfaça aos 30, 40, 50 não é um problema. Problema é achar que é tarde. Continue procurando. Não podemos ter vergonha de ir atrás daquilo que desejamos. Danem-se os julgamentos alheios. O que não pode acontecer é ter arrependimento pelo que fizemos, mas perceber que não temos que desistir ou achar que não somos capazes de nada em nossa vida por conta da nossa idade. Nossas idades precisam ser vividas e realizadas com a plenitude que cada etapa traz.