As ocupações no sul da Bahia tem demonstrado um avanço no debate contra as opressões. Se você fizer uma visita vai perceber que a maioria das pessoas presentes nas instituições ocupadas correspondem as chamadas “minorias”.  São mulheres, negros e negras e lgbts que se articulam diariamente em defesa de uma educação de qualidade e para garantir o acesso daqueles e daquelas que ainda não chegaram.  É a defesa para que pessoas como eles e elas, como nós, tenhamos no mínimo a garantia do que Galeano diz sobre o “horizonte” (1), que pra gente é o ensino público progressista.  No dia a dia de quem luta pela educação, que vem sendo constantemente golpeado por todos os lados, as ocupações transformam-se no fortalecimento do nosso horizonte, a nossa utopia.

Essas pessoas, e principalmente, os e as secundaristas, estão propondo e agindo com uma nova forma de fazer política. Longe dos acordões que vem de cima pra baixo, longe do protagonismo das entidades e dos bandeirões que tomam conta das fotos.  É a política do diálogo construtivo, não da repetição para demarcar espaço. É a política de uma unidade real, não do apertar as mãos em assembleia, mas sem deixar falar no trio ou recortar das fotos quem não constrói minha entidade. É a política do entender que as retiradas dos direitos que foram duramente conquistados até aqui, nos une, para além do nome da entidade que representamos ou somos representadas.  Neste aspecto, podemos até perceber uma similaridade com as jornadas de junho de 2013. Mas só aí. O movimento de ocupações de 2016 assume um caráter mais próximo da realidade, são os e as filhas de trabalhadores e trabalhadoras que protagonizam a movimentação, com todas as suas interseccionalidades e repudiando toda e qualquer negação de identidade e direitos.

Em 2013 estiveram nas ruas pessoas das mais diferentes classes, credos e opiniões, que inicialmente, insatisfeitos com o aumento da tarifa dos ônibus, se articularam por meio da internet e das redes sociais a fim de manifestarem-se contra uma série de negação de direitos. Para aquelas pessoas, naquele momento, o “gigante” havia acordado, e esse foi o bordão das jornadas de Junho/2013, e assim, o Brasil não estaria mais em situação de repouso, como sugere nosso hino.

Naqueles atos houve uma forte negação dos partidos, das bandeiras que os identificava e dos movimentos sociais. Não havia uma liderança partidária ou social que claramente dirigisse as manifestações e desse a linha política das jornadas. Entendia-se que a insatisfação com as representações políticas alcançava um auge e refletia o que os e as jovens queriam enquanto articulação política. Pode-se pensar que é a partir desse momento que o discurso contrário as organizações partidárias começa a se fortalecer.  Não quero e nem vou abrir parênteses para o perigo que é a negação dos direitos individuais de organização político-partidária e das manifestações desses órgãos em momentos como esses, e de como isso pode ter influenciado nas abstenções durante as eleições de 2014 e 2016. Entendia-se que o movimento precisava ser independente, e concordo, mas ele não foi. O das ocupações, tem sido.

A presença marcante da classe média e da “nova classe média” – ou nova classe trabalhadora (2), nas jornadas de junho foi o que deu a linha política do movimento que se dizia independente. A cobertura da mídia hegemônica, que mesmo tentando desarticular o movimento ao dar ênfase nos “black bloc” e sendo pautada e desacreditada por ele, também cumpriu seu papel na articulação dessa “independência”. Mas o que mais chama a atenção para a diferença entre os dois movimentos e a forma como a mídia hegemônica lidou e lida com ambos, está em entender quem são os e as protagonistas das ocupações estudantis de 2016.

O ano em que a democracia brasileira recebe um golpe disfarçado de impeachment também será lembrado com o ano de resistência da juventude estudantil frente aos mais diferentes retrocessos que continuam a aparecer.  São mulheres, negros e negras e lgbts que estão dando a linha política das ocupações, que estão permanecendo na resistência frente ao autoritarismo e a violência do Estado, que sempre esteve presente no cotidiano desses indivíduos, e que agora assumem a defesa de um direito conquistado, pensando não somente em sí, mas, sobretudo nos que estão por vir.

As ditas minorias estão em maioria nesse processo e isso pode e deve ser entendido como um reflexo histórico do nosso processo de construção enquanto Brasil. Historicamente, esses indivíduos foram marginalizados por conta de suas identidades. A estrutura de uma sociedade capitalista baseia-se nas opressões de classe, gênero, cor e sexualidade, mas não de forma individual, essa estrutura se alimenta da intersecção entre as especificidades desses indivíduos como forma de criar e manter barreiras simbólicas (mas não só) para o avanço e a integração dos e das mesmas em nossa sociedade.

Isso não é novidade. Os números e as pesquisas nacionais e internacionais demonstram que a presença de mulheres no ensino superior teve um aumento em relação à presença masculina (OECD Indicators) (3).  A presença é mais forte, mas não garante a equidade. Ao fazer o recorte de classe e raça (enquanto construção social e histórica), percebemos que eram mulheres da classe média/alta e brancas.  A partir da inserção de uma política de ações afirmativas nos últimos 13 anos, é que as universidades começam a ter outra cara, com a entrada de pessoas negras dentro das instituições.  Essas ações só foram implantadas por conta da articulação do movimento negro no país, que percebe a necessidade de incluir quadros políticos no governo e manter a pressão social de combate a desigualdade social e ao racismo estrutural (GOMES, 2007) (4).

Mesmo com toda a dificuldade da inserção de negros e negras nas IES, continuamos com pequenos avanços, infelizmente, sempre a passos muito curtos, mas que são importantes de serem destacados. Esses indivíduos que começam a ocupar o espaço das IES trazem consigo suas particularidades: são homens e mulheres que além de negros e negras, são também pobres, moradores e moradoras de regiões onde o Estado só assume a presença na sua forma policial, e LGBTS. Inicia-se então, um processo de fortalecimento das ditas minorias. Uma tomada de consciência, que começa com indivíduos da classe média e intelectual, mas que, aos poucos, alcança aqueles e aquelas que adentram a universidade, com uma outra perspectiva sobre a realidade.

O espaço acadêmico, outrora de extremo conservadorismo, passa a ser ocupado por mulheres negras que ostentam seus cabelos crespos e lutam pela permanecia feminina e pelo direito a creche; por homens negros e gays afeminados que não se viam dentro dos muros das IES, mas agora realizam “batekoo” dentro do espaço de convivência dos e das estudantes; por mulheres lésbicas que andam de mãos dadas sim, e demonstram afeto com suas parceiras em qualquer espaço onde apenas héteros faziam; por mulheres e homens trans que levam sua bandeira de equidade e direitos e pressionam as administrações superiores a enxergá-las. Articulam-se em coletivos de combate as opressões, coletivos de movimento estudantil, grupos de estudo e ocupam salas de aula e espaços de convivência impondo uma presença que não é aceita, e sempre foi silenciada.

O que vemos agora é que o discurso de empoderamento não se restringe apenas nas instituições de ensino superior, mas está presente também na educação básica. Meninas e meninos estão cada vez mais assumindo suas sexualidades, suas identidades de gênero e suas identidades étnicas e lutando pela defesa dessas.  É importante destacar o papel da internet nesse quesito, pois nos últimos anos foi e é através das redes sociais que encontramos uma representatividade maior de indivíduos que não tinham espaço na mídia hegemônica. É através do Blogueiras Negras e youtubers negras que as meninas começam a entender que é legal sim deixar o cabelo crespo crescer, e por o bato azul pra destacar os lábios grossos, pois eles fazem parte do que você é. E por entender quem nós somos, por nos achegarmos através do fortalecimento da nossa estética, é que percebemos que o racismo não se finda aí, e que precisamos nos articular e aprender ainda mais sobre o assunto. É através do “Canal das Bee” que as lésbicas, gays negras e afeminadas, transexuais e travestis começam a compreender que dar pinta é legal sim, que demonstrar afeto a/ao seu companheiro é uma atitude de revolução frente a uma sociedade heteronormativa, e que as IES são espaços que devem ser ocupados da forma que somos, sem silenciamento.

A apropriação do ciberespaço por parte desses e dessas jovens tem tido papel fundamental no fortalecimento dessas identidades, e junto com o trabalho de base. O trabalho de professores e professoras que acreditam numa educação progressista e colocam essas pautas no seu dia a dia, mesmo que os currículos não deliberem sobre, e o trabalho dos movimentos sociais que atuam no dia a dia e também estão presentes alimentando a cibercultura, é que vai auxiliar esses jovens a conquistar ainda mais espaço.  Principalmente porque a mídia hegemônica não vai nos mostrar.

Não podemos nos enganar achando que as mudanças e espaços conquistados são suficientes. Eles são apenas o começo. É preciso agora lutar para que não haja retrocessos. Para que continuemos afrontando o racismo, o machismo e a lgbtfobia, escancarando nossas identidades e sendo protagonistas das nossas lutas e escrevendo nós mesmos as nossas histórias e a do país, a fim de abrir caminhos para os que estão por vi depois de nós.

Ocupa tudo e Fora Temer!

¹:Feminista Negra Interseccional. Graduanda em Ciências Sociais na UESC. Militante do Coletivo Feminista Laudelina de Campos Melo e do Coletivo ParaTodxs.

Notas

  1. GALEANO, Eduardo. Entrevista. Concedida ao Programa Singulars. Tv3 Espanhola. (Transcrição e tradução de Cainã Vidor, na Revista Fórum).
  2. CHAUÍ, Marilena. Uma nova classe trabalhadora, 2013. Disponível em:< http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Uma-nova-classe-trabalhadora/4/28062 />. Acesso em: 15 de nov. 2016.
  3. REVISTA ENSINO SUPERIOR. Dica de leitura. Disponível em:< https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/notas/mulheres-sao-maioria-com-nivel-superior-mas-homens-dominam-mercado-de-trabalho />. Acesso em: 15 de nov. 2016.
  4. GOMES, Nilma Lino. Diversidade étnico-racial e educação no contexto brasileiro: algumas reflexões. In: GOMES, Nilma Lino (org). Um olhar além das fronteiras: educação e relações raciais. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p.97-109.

Imagem destacada: Agência Brasil