Na manhã de segunda-feira (21/11/16) falávamos com Adelia Sampaiosobre sonhos. Adelia, a primeira cineasta negra a dirigir um longa-metragem no Brasil, nos lembrou a graça de sonhar, fez piadas com isso e nos instigou. Estávamos em um carro rumo ao aeroporto. Ela voltaria pra casa ainda naquela manhã. Infelizmente, a realidade de uma mulher negra brasileira ainda é muito distante da sonhada. Adelia Sampaio foi impedida de voltar pra casa como planejado.
 
Ela retornaria ao Rio de Janeiro em um vôo no aeroporto Salgado Filho, às 10h39. Nos despedimos às 10:00 na entrada da sala de embarque, ainda digerindo o encontro potente e inspirador que aconteceu na noite anterior. Mas logo após, em torno de 11h, recebemos uma mensagem de Adelia dizendo não ter embarcado pois se recusou a tirar a calcinha em uma revista vexatória e, que naquele momento, estava na Delegacia de Polícia para o Turista (DPTUR), sem passagem para retornar a cidade onde reside.
 
Nossa primeira reação foi de profunda perplexidade. Aos 72 anos, Adelia tem próteses nos dois joelhos e 17 pinos na coluna. Há anos viajando, nunca havia enfrentado problemas para embarcar, tanto no Brasil, quanto no Exterior, visto que avisa com antecedência sua condição para os funcionários do equipamento detector de metais. Dessa vez, porém, foi levada a uma sala fechada por uma Agente de Proteção da Aviação Civil (Apac), que a obrigou a tirar a roupa e agachar-se.
 
Ironicamente, Adelia veio a Porto Alegre receber uma homenagem. Convidada e acolhida por mulheres negras para segunda edição do cineclube que leva seu nome, exibiu seu icônico filme, Amor Maldito, de 1984. O evento ocorreu no dia 20 de novembro (Dia da Consciência Negra), na Cinemateca Capitolio, data extremamente significativa para nós, que carregamos em nossos corpos a cor da resistência e da luta pela igualdade racial.
 
Escrevemos este manifesto ainda violentamente atingidas. Sequer nos foi dado o direito de guardarmos na memória esse encontro com a primeira mulher negra a fazer um longa-metragem no Brasil, sem que esse evento fosse atravessado pelo racismo.
Passamos hoje por um processo de resgate, de tentativa de enegrecimento de nossas memórias, de retomada.
 
O Cineclube Adelia Sampaio surgiu desse momento. Era urgente, para nós do Coletivo Criadoras Negras, enegrecer a memória e a história do nosso cinema, trazer e homenagear trabalhos de mulheres negras que fazem audiovisual, para dar visibilidade a nossa narrativa. No meio desse processo mais uma vez fomos barradas e obrigadas a revisitar um lugar de dor.
cineclube-adelia-sampaio

cineclube Adélia Sampaio

Nossos desejos se chocam frequentemente com essa barreira, com o preconceito. Como se não nos fosse permitido o direito ao sonho. Mas como seguir sem sonhar? Para quê?
 
Reencontramos Adelia Sampaio mais uma vez pela manhã.
 
Voltamos imediatamente ao aeroporto depois de seu contato, acompanhadas dessa vez de nossa advogada Luana Pereira.
 
Encontramos a cineasta sozinha em frente a Polícia Federal, sem nenhuma assistência, nem da companhia LATAM Airlines, nem da Infraero. Ficamos quase 5 horas com ela tentando garantir seu bem-estar e contatando a imprensa. Foi preciso resistência psicologica e física, projeção midiática e o engajamento de duas advogadas para Adelia retornar sem custos adicionais para casa.
 
Ela tinha os olhos marejados, estava abatida mas seguia forte… ainda conseguiu nos falar novamente de sonho. Rimos!
 
A felicidade de uma mulher negra, apesar de todas as barreiras colocadas pela nossa sociedade, é uma das maiores possibilidades de transgressão e transformação do status quo.
 
Somos 49 milhões de mulheres negras, isto é 25% da população brasileira, e ainda vivenciamos a face mais perversa do racismo e sexismo. É necessário hoje, mais que nunca, construir uma rede de apoio que permita a partilha e o afeto para nós e conosco.
 
Enquanto coletivo, queremos manifestar nossa solidariedade e
apoio a Adelia, que merece ser tratada com dignidade e respeito em qualquer lugar que frequente. Reiteramos que o ocorrido no aeroporto ontem foi um ato agressivo, fruto do racismo estrutural de nossa sociedade. Racismo esse que faz com que se ache suspeito uma mulher negra pegar avião, que faz com que se ache natural uma mulher negra ser submetida a uma revista inconstitucional (proibida atualmente até mesmo dentro de presídios), onde se ache regular pedir para ela abrir as pernas como se abre um objeto, uma mala… e a vasculhar por dentro.
Sim, uma mulher negra ainda é vista como objeto e se reclamar desta condição pode ser acusada de desacato, como aconteceu com nossa renomada cineasta.
É importante dizer que o que vivenciamos ontem é apenas mais um exemplo dos milhares de relatos diários sem nomes e sem rostos. Adelia tem o privilégio de ser uma artista reconhecida e de ter sido pauta para a imprensa, mas incontáveis outras negras – como nós – passam por constrangimentos e agressões preconceituosas no anonimato. Por elas lutamos, por elas seguimos, com elas sonhamos. Nós por nós. Seguimos!
Criadoras Negras RS (22/novembro/2016)
Iliriana Rodrigues, Kaya Rodrigues, Alessandra Santos, Monique Rocco,Vanessa Garroni, Luana De Brito, Ana Lúcia Ríbas, Bruna Lleticia, Sandra Cecilia Peradelles, Gabriela Oliveira