“Sou a que não tem medo.”

Elza Soares

(…)

Mudar de foco, de objetiva e de objetivo, tá valendo? E como segura esse forninho? Escrever é assinatura, personalidade, vida. Precisa ser. E justamente por isso está podendo sim, é nossa escolha. Fazer isso em bonde é vandalismo, é resistência. Olha que delícia. Esse é o tamanho do desafio que te convidamos para construir em 2017. E se a gente pudesse fazer tudo diferente? E se nossas estórias fossem sobre aquilo que nos humaniza?

Eitaaaaaaaaaaaaaaa, já escutamos o batuque de ninguém arredando o pé, marra, potência. Sobre vaidade, altivez, beleza, arte e cultura, cinema, música, sexo, vida ao ar livre, movimento. Com gente fina, elegante e sincera. Não pera. Retira essa parte porque nunca seremos dessas, Alexandra. Aqui tem chiquedelia e boniteza de sobra, mas elegância não está teno graças à deusa. Somos pelo furdunço sempre. Mas sem gourmetizar que tá feio.

Continuamos dessas e ninguém vai passar pano pra um ano em que vimos tantas desgracenças. Um dos últimos episódios foi o de Luis Carlos Ruas, assassinado por ter defendido a travesti chamada Brasil que tem sido tratada como acessório nessa tragédia e permanece simbolicamente inonimada. E se não fosse por likes, seria diferente? Nosso único desejo é que todos os episódios em que pessoas trans são atacadas e assassinadas também ganhem a mesma visibilidade.

Desejamos também falar muito mais dos caminhos que só percorremos, quem está na nossa pele, esse território imenso. Aqueles trilhados por uma mulher negra, lésbica, periférica, pobre, a primeira a conquistar uma medalha de ouro nas olimpíadas de 2016. Obrigada Rafaela por representar todas as comunidades que foram removidas para que esse “espetáculo” acontecesse. Nos disseram que não era gente estar lá, mas estivemos. Obrigada.

Esse é o nosso convite agora que o horizonte é tão sombrio. Narrar estórias em que somos mais do que nos disseram que somos. Em tempos de golpe, precisamos dessas memórias e presenças mais vívidas do que nunca. Não podemos esquecer, não podemos não contar. Não podemos nos dar ao luxo de tratar questões subjetivas, que nos afetam enquanto comunidade, à mercê do que nos dizem para fazer, ser, sonhar e pensar. Não se trata de ser feliz apenas, mas de sermos mais, como Elza.

Não vamos esquecer que reforma da previdência é apenas uns dos projéteis que nos são dirigidos nesse momento. Quantas de nós não irão se aposentar? Todas nós, negras, periféricas, pobres… Estamos sob ameaça. Algumas que temos trabalhado desde a mais tenra idade, seremos mortalmente feridas. Outras, que estamos à margem do sistema previdenciário, seremos colocadas em situação de vulnerabilidade ainda mais acentuada. Mas a gente é desse tipo que balança mais não cai, Jovelina.

De qualquer jeito vamos ficar numa legal e lembraremos também de Simone, a primeira medalha de ouro de uma nadadora negra na história dos jogos olímpicos. Sua vitória ecoa mesmo aqui no Brasil onde as piscinas ainda são território hostil. Um apartheid que se perpetua, porque onde não há equipamento, não treinam as futuras campeãs. Que seu exemplo, como a própria atleta disse, seja de todas aquelas que vierem depois.

E quais são as estórias que queremos contar para quem vem depois?

Ainda nos querem escravizadas, mas basta Elza. Obrigada por isso.

Agora mais que nunca, que o centro sejam as estórias do fim do mundo. Agora que a pec da morte, agora lei, estrangula aquela que já foi considerada a promessa de constituição cidadã. Moradia, educação e saúde, por exemplo, serão asfixiadas até o último suspiro. O corte somará trilhões ao longo dos anos, com efeitos colaterais que não poderão ser superados senão em décadas por vir. O que era ruim ficou pior. Então pioremos também, mas no melhor sentido da palavra.

Sigamos de ladinho até o chão, Lellêzinha.

Porque em nossas comunidades, ainda que sob intensa violência, vive o talento, a potência, aquela que está nas telinhas através de mulheres como Maju e agora Tia Má como consultora global e Taís (de Verdade) Araujo como a primeira apresentadora negra a estrelar o Saia Justa. Essas estórias também são essenciais para nossa luta, porque abrem fronteiras, desbravam possibilidades conquistadas com incontáveis horas de riscadinho e política em todo o país.

Coisa pra lá de importante porque a comunicação obviamente é um dos principais sintomas mais agudos desse estado de coisas em nesse ano que vai demorar décadas para passar. A produção de números sobre a realidade da população negra foi colocada em cheque o desmanche da Coordenação de Gênero e Raça do Instituto de Pesquisa Econômicas Aplicadas no Ipea, por exemplo. A EBC que em tempos de golpe tem como assunto no final do ano o horário das agências bancárias, a agenda de shows da virada, o calor.

Em Minas Gerais, o PL 1.642/2015 será enviado pela Câmara Municipal à prefeitura de Belo Horizonte. Ele determina a obrigatoriedade do ensino religioso no ensino fundamental público, mais um dos projéteis de um bem arquitetado ataque ao estilo enxame. Aqui a mira é ao mesmo tempo na laicidade, que nos garante o direito de liberdade de culto, e também nas religiões de matriz africana e todas as suas manifestações afins.

É hora de sambar hardcore na cara e nas bases dessa sociedade que quer nos exterminar. Nada menos do que isso. Olha a gente aí, levantando a nossa bandeira e também a poeira, porque a gente também é gafiera, Alcione. Somos as netas e as filhas de Dona Teté e vai ter irreverência, deboche, risada e afrontamento que não é de agora e nem termina aqui. Não estamos saindo, tamos entrando com o pé.

Fortes e atentas estamos, nada jamais passará em brancas nuvens. Nunca passou, não é Elza? Esse é teu nome 2017, porque somos aquelas que não temos medo. De ressignificar a banda e o bonde passar. Se faltar grana, vai ter financiamento coletivo para por a criança para funcionar. Queremos falar de tudo aquilo que não nos é permitido como mulheres negras. Feminista séria fala de vaidade? Vai pra avenida? Tira selfie? E quem disse que tem gente séria por aqui?

Nesses tempos tão sombrios, é preciso lembrar que a felicidade e comemorar as conquistas também são movimentos necessários e sobretudo uma potência. Esse também foi o ano em que fomos, nós Blogueiras Negras, premiadas com o Prêmio Almerinda Farias Gama pela Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Social, SMPIR, em São Paulo, que será desmanchada pela próxima gestão. Junto com ela também será desmontada a Políticas Paras as Mulheres.

O prêmio, uma conquista que é de cada uma de nós que acompanhamos, colaboramos escrevendo e coordenando esse espaço de resistência. Nosso muito obrigada por compartilhar essa luta conosco e nos permitir estar, ainda que só um pouquinho, também em outras batalhas. Que vamos abraçar sem medo em 2017. Moda, arte, paetês e fru frus. Também tudo nosso. Precisa ser, para que haja serenidade e sanidade. Porque a luta não pode ser apenas mais uma tecnologia para nos matar.

É por isso que o Encontrão Blogueiras Negras Combate a Violência Contra a Mulher, que aconteceu em Recife em Outubro, foi tão importante. Um momento de ir mais que além do olho no olho, de abraço e de reconhecimento daquilo que nos faz irmãs mesmo nas tretas e para além das redes. Esse é o nosso objetivo, por isso estamos migrando do facebook para uma rede fora dessa plataforma. Não sabe onde, como, quando? Fala com a gente! Vamos criar novos laços e reafirmar as relações de outros carnavais…

Porque essa estória não é de agora, Elza.

É sobre isso que a gente quer falar. Ser fechamento na vida, na autoestima, na pista, na política, no poder. Poder de fazer e ser o que queremos, de acessar os mecanismos que podem de fato mudar nossas realidades. É um mergulho, profundo. De ir ao ponto, ao cerne, à raiz da questão que vai resolver essa porra toda. Não queremos apenas sobreviver Elza, queremos muito mais. E ainda é pouco.

Imagem de destaque – BrasilPost