​O cinema é, além de arte, uma ferramenta política e social. Para o cineasta Zózimo Bulbul, “é uma arma. E nós, negros no Brasil, já temos uma AR-15 e, com certeza, sabemos atirar”. Ele pode ser usado como um meio de opressão ou como meio de emancipação. Se a crescente visibilidade do “Cinema Negro” e a existência de mulheres negras na produção de filmes são sinais de mudanças, a quantidade de cineastas negras é uma grande revolução. Afeto e resistência são a base e a (re)tomada de muitas das nossas histórias e lutas, materializadas no cinema contemporâneo brasileiro.

Ao tratar de Cinema Negro no Feminino não posso deixar de citar a primeira cineasta negra, Adélia Sampaio, que marcou o cinema nacional e teve um papel fundamental, em especial, com sua atuação nas décadas de 1970 e 1980. Além de dirigir os curtas Denúncia vazia, Adulto não brinca, …Agora um Deus dança em mim, Na poeira das ruas, Scliar e AI-5 – o dia que não existiu, dirigiu os longas-metragens Fugindo do passado: um drink para Tetéia e história banal, Amor maldito – pioneiro no país a trazer um casal lésbico e abordar lesbobofia e saúde mental, temas tão importantes e, ainda hoje, negligenciados. Vale citar também Lilian Solá Santiago, talvez a segunda cineasta negra, com uma produção grande de documentários desde 2004.

​Desde os anos 2000, o número de cineastas negras vem crescendo paulatinamente. Dentre as produções cinematográficas produzidas no Brasil por cineastas negras e negros, “as mulheres são protagonistas” (OLIVEIRA, 2015). A maioria dessas obras é de curta-metragem, apresenta boas estórias e personagens negras com suas individualidades, entretanto, a produção de longa-metragem lentamente vem se expandindo. Neste horizonte, verifico algumas estratégias de afeto e solidão no filme Café com Canela (2017), de Glenda Nicácio e Ary Rosa Duarte, lançado no último dia 10 de fevereiro.

​Café com Canela se passa no Recôncavo da Bahia, uma região de enorme influência africana. Narra a história de vida de Margarida (Valdineia Soriano), moradora de São Félix, que vive triste e isolada após a perda de seu filho e Violeta (Aline Brune), sua ex-aluna, moradora de Cachoeira, que segue sua vida em meio as tribulações do dia a dia. Como dizem que essas terras são heroicas, cheias de dendê, axé e força do movimento secular de mulheres negras – a Irmandade da Boa Morte, o afeto e o cuidado de sua ex-aluna fazem despertar em Margarida a vontade de viver a vida. Numa abordagem capaz de levar o sol ao riso, a chuva aos olhos e o gostinho de café com canela à boca.

Este filme aparenta, mas não é um filme comum. Se destaca por trazer personagens negras reais e individualizadas, em que nós mulheres negras nos reconhecemos ou lembramos de vivências de nossas ancestrais. Com um olhar sensível para as questões locais, por meio de suas personagens o filme rompe com o machismo, o sexismo, a homofobia e o pensamento colonial propagado por muitos cinemas. Se assemelha ao cinema nigeriano, por ser produzido por moradores da região e ser profundamente enraizado na tradição cultural e social do povo negro, com um linguajar muito peculiar de leitura e compreensão do mundo, isto é, distante do modo americano e europeu de criar signos audiovisuais. Como ponderam Júlio César dos Santos e Rosa Maria Berardo (2014).

… sendo o cinema uma prática social que identifica sujeitos que se materializam como representações simbólicas, e que segundo Hall (2011) sempre se produzem em três instâncias: como um reflexo social, em função de uma intencionalidade, e sempre construído socialmente, o que lhes confere sentido, revelando determinados pertencimentos (SANTOS; BERARDO, 2014. p.246).

​Muitas obras, no quesito de representação, ainda hoje reforçam estereótipos ou posições subalternizadas, nos oprimem. As personagens de Café com Canela fogem dessa representação e se aproximam das nossas vivências, culturas e raízes. Olhar para Margarida, por exemplo, nos lembra que as dores são múltiplas, as marcas são grandes e expostas, que o medo de viver ou morrer são constantes. bell hooks (2010), em seu texto intitulado “Vivendo de Amor”, nos diz que “algumas vezes a gente se olha e vê tanta confusão, tanta dor, que não sabe o que fazer”. Nesse momento é que precisamos de amor em nossas vidas, pois ele pode nos salvar.

​Ao me debruçar sobre a historicidade em que nós mulheres negras estamos inseridas e o meu entorno, é notável que nossas trajetórias, desde o período de escravização até a contemporaneidade, são permeadas pela solidão. Em 2013, Ana Cláudia Lemos Pacheco em seu livro “Mulher Negra: afetividade e solidão”, apontara a necessidade de levar em conta a dicotomia raça e gênero nos estudos em torno da afetividade. No caso de Margarida, o sentimento de solidão se aproxima e se traduz em sofrimento, choro, desilusões e decepções, tudo associado à perda de seu filho.

​O filme em questão, se inicia com cenas do aniversário de Paulinho, filho da protagonista Margarida, sendo filmadas pelo pai do menino, chamado Paulo. Todas e todos estão felizes. Mas, ao longo do enredo, vamos acompanhando a personagem mergulhando dia após dia na tristeza, lembrando de momentos do aniversário e conversas, e sua vida ficando cada vez mais infeliz e sem brilho. Numa cena em que está deitada no sofá, a vemos cantando um trecho da música Arvore, de Edson Gomes “Vem me regar mãe, vem me regar ou, ô, ou / Vem me regar mãe, êa! Vem me regar / E ando sobre a terra, e vivo sob o sol / Minhas, minhas, minhas raízes eu balanço, eu balanço, eu balanço / Vem me regar mãe”, onde mostra sua solidão e que, no fundo precisa de alguém.

Na personagem de Margarida, há constatação do que vêm se passando com muitas mulheres negras, principalmente na atual conjuntura política, em que esse quadro se mostra mais agudo e as mulheres negras estão cada vez mais reprimindo seus sentimentos e tendendo para um isolamento. Como nos lembra hooks, a pouca ou nenhuma afetividade na vida de mulheres negras é uma das verdades privadas menos discutidas em público, indicando o quão doloroso é tratar e debater esse assunto, mas precisamos falar sobre isso e procurar saber o que se passa com as mulheres negras próximas a nós quando as perdermos de vista.

​Violeta, por sua vez – é uma jovem que mora com seu companheiro, filhos e cuida de sua avô (Dalva Damiana de Freitas) – uma senhora religiosa bem debilitada. Ela trabalha produzindo e vendendo coxinhas para sustentar a família, é religiosa do candomblé e é um exemplo para muitas mulheres negras guerreiras que, sem saber, combatem as dificuldades do dia a dia e o machismo. Ainda sob a perspectiva de bell hooks, ela fala que “quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente. E para viver plenamente as mulheres negras não podem mais negar sua necessidade de conhecer o amor”.
​Nesse processo de solidariedade e afeto, Violeta reencontra Margarida e, a partir daí, ela inicia um processo gradual de transformação em sua vida, deixando, a princípio, rosas vermelhas em sua porta, depois fazendo visitas, limpezas em sua casa, trocando ideias, dando boas gargalhadas e tomando cafés com canela, o que terminar por despertar em Margarida a vontade de voltar a viver e de buscar por amores antigos. A presença de Violeta na vida de Margarida tem o mesmo poder transformador mencionado por hooks: “quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.”
​Em meio a tais histórias, Café com Canela traz à baila fílmica a vida de um casal homossexual, que é o Doutor Ivan – interpretado por Badu e o estrangeiro Adolfo. Não se trata de descobertas e sim de afirmação de uma sexualidade. O que se costura nas falas é a relação afetiva de um médico negro, assumido, seguro em sua sexualidade, com um homem mais velho e estrangeiro com quem convive. Com o falecimento de Adolfo, Ivan, que é amigo e vizinho de Violeta, sofre a perda de seu amor.​
​O filme, além de trazer um conteúdo bem interessante e pertinente para a reflexão atual, possui uma fotografia que valoriza a pele negra, com muitos planos sequenciais que nos colocam mais próximas às personagens e do Recôncavo da Bahia. O som, baseado em ritmos africanos e afrodiaspóricos, é muito utilizado durante toda a narrativa, lembrando a nossa ancestralidade, baseada em ritos que nos ajudam a tocar a vida.
​Segundo Edleuza Penha de Souza (2008), “o cinema interage com o emocional, o intelectual o físico e o psíquico do corpo” e as estórias narradas pelo cinema “são o elemento que possibilita um novo olhar do papel feminino capaz de construir estratégias de afeto, amor e identidade para as mulheres negras”. Nesse sentido, a escolha por trazer uma análise desta obra cinematográfica é porque trata-se de um suporte para a ação de representação, por ser antes de tudo – resistência, por romper com a lógica racista, por apresentar o cotidiano de mulheres negras.

Mais informações:

https://www.facebook.com/cafecomcanela2015/

Referências

HOOKS, Bell. “Vivendo de amor”. 2010 Disponível em: Acessado em: 25 de Março de 2017.
OLIVEIRA, Janaína. “Cinema Negro no Brasil é protagonizado por mulheres, diz pesquisadora”. 2015 Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2015-12/cinema-negro-no-brasil-e-protagonizado-por-mulheres-diz-pesquisadora>Acessado em: 26 de Março de 2017.
PACHECO, Ana Claudia. Mulher negra: afetividade e solidão. Salvador: EDUFBA, 2013.
SANTOS, Júlio César dos Santos; BERARDO, Rosa Maria. “Representações cinematográficas de mulheres negras”. CHAUD, E e SANT’ANNA, T.F. (Orgs.). Anais do VII Seminário Nacional de Pesquisa e Cultura Visual. Goiânia-GO: UFG, FAV, 2014.
SOUZA, Edileuza Penha de. “Mulheres negras no cinema Brasieliro – Estratégias de afeto, amor e identidade”. Fazendo Genero 8 – Corpo, Violência e Poder. Florianópolis, 2008. Disponível em: < http://www.fazendogenero.ufsc.br/8/sts/ST69/Edileuza_Penha_de_Souza_69.pdf> Acessado em: 25 de Março de 2017

Imagem de destaque: Café com canela.

Texto sob a orientação da Prof Dra. Zelinda Barros