Corpo

Perdão Cristiane: sobre identidade e negritude

Cristiane carregava na cara preta de 11, 12, 13 anos de idade todo o peso do racismo arraigado da nossa cultura. E ela, no seu início de adolescência, encarava de frente, de cabeça erguida e peitava mesmo, quem fosse! E gritava e xingava mesmo. Eu a vi chorar uma vez, foi bem pior. A gozação triplicou com as lágrimas da menina sentada no chão segurando os cabelos.

Sobre um mundo em que sou invisível

Poxa, as princesas que tinham finais felizes eram brancas, de olhos claros. E eu me lembro de querer ser como elas, associar elas ao bem, ao bom, ao puro. Eu não sabia que nunca poderia usar vestidinho rodado porque “me engorda” e eu tenho que disfarçar, ou que não poderia soltar meu cabelo ao vento, porque ele não balançaria, ninguém me avisou. Só me deram uma boneca e um desenho animado e disseram que aquelas moças magras e brancas iam ser felizes.

Uma bunda na foto vale mais que uma arara!

Ao ler os comentários sobre o episódio dessa chamada de brasileiras para casamentos com gringos através do site do Huck, só consigo pensar em como nós brasileiras ainda somos vistas no nosso próprio país: mercadorias com bundas do tamanho P, M e G. Não sou macaca, minha bunda não é internacional, Brasil não é cartão postal de bundas e a mulher brasileira não esta à venda!

Gratidão Lupita Nyong’o

Não sei vocês, mas para mim, usar cores já foi difícil, houve um tempo em que usar um batom colorido era impossível, achava que as cores não combinavam com pele preta. O que pode parecer besteira, não é, essa minha insegurança (e acredito que seja de outras mulheres também) reflete o quanto nós, negras, infelizmente ainda sofremos com a falta de referências, essas que crescemos sem.
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No rastro da pantera: a democracia da abolição e o black feminism de Angela Davis

Não é esse o modelo de direitos sexuais e reprodutivos que queremos. Se no período colonial as mulheres negras raramente podiam criar suas/seus filhas(os) pelas circunstâncias da escravidão, na contemporaneidade ainda padecemos do racismo institucional que reduz e precariza o acesso aos serviços públicos de saúde, levando ao alto índice de violência obstétrica e mortalidade materna.

Questionamentos sobre pele negra e a modificação corporal

Beleza é algo totalmente subjetivo, e o que temos são particularidades naturais aos diferentes corpos humanos. Os profissionais devem estar conscientes de que usar fotos somente de pessoas brancas em seus portifólios se mostra como um desserviço a nossa população de maioria negra, pois pode passar falsas informações quanto as especificidades da tatuagem adequada para os variados tons de pele. Acredito que esta prática vai contra até mesmo a divulgação de seu trabalho, pois deixa de demonstrar todas as habilidades do tatuador, além de revelar, também, a descarada invisibilidade da população negra.

O espelho descobrindo o meu cabelo crespo

No início, assim que cortei todo o cabelo quimicamente tratado acredito que a pior fase era me olhar no espelho e não me enxergar como uma mulher negra, natural e linda, foi hard!!! Não conseguia de maneira alguma me achar bonita, não compreendia a forma e a textura do meu cabelo. Agonia, desespero e medo eram os sentimentos que me definiam no início do processo. Tanto que chorava ao me olhar no espelho, não queria sair, me sentia mal com os olhares, a minha vontade era me trancar dentro de casa e não sair mais ou alisar o cabelo novamente.

Negra e grávida: ainda mais invisível?

As discussões sobre humanização do parto e nascimento eram praticamente novidade total para mim quando me descobri grávida, em janeiro de 2011. Apesar de não ter muita informação, de cara eu já sabia que queria que meu filho ou filha viesse ao mundo por parto normal. Mal sabia eu a luta que precisaria enfrentar para que isso fosse possível. A realidade dos atendimentos nos serviços de saúde não é animadora de um modo geral, e o quadro piora quando se trata de atendimento a mulheres negras. De acordo com Alaerte Martins (2000), as mulheres negras tem 7,4 vezes mais chances de morrer antes, durante ou pouco tempo após o parto, do que mulheres brancas. Além de doenças pré-existentes e falta de acesso a serviços de saúde, o atendimento prestado às muheres negras pode ajudar a explicar esses números.